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SANTA CRUZ, PORTUGAL

  • José Luís Peixoto
  • há 13 minutos
  • 3 min de leitura

Memórias da Praia de Santa Cruz







Na última noite, a minha mãe não se deitava. Eu adormecia a escutar os pequenos ruídos que fazia a arrumar tudo o que levaríamos em muitos sacos, empilhado na bagageira do carro, e, no fim de tudo, a arrumar a casa inteira, a lavar o chão. Não podíamos sair sem o chão estar lavado. Durante essa noite, eu tinha três, quatro, cinco anos e o meu sono era intermitente. Então, chegava uma hora certa e, meio acordado pelas minhas irmãs, meio acordado pelo meu próprio entusiasmo, era ainda de madrugada escura quando me levantava da cama. Era ainda de madrugada quando saíamos.



O meu pai encaixava o maior número possível de sacos na bagageira, essa era uma tarefa que requeria método. Ainda assim, a minha mãe levava sempre sacos junto aos pés, e as minhas irmãs levavam sacos no colo. Era o fim dos anos setenta. Quando saíamos de casa, o dia já tinha nascido mas as luzes dos postes continuavam acesas nas ruas.



Em casa, na sala, a luz amarela da lâmpada assentava sobre a claridade que entrava pelos estores quase fechados e por baixo da porta. O fresco daquela hora e o morno das lâmpadas, a neblina daquela hora e a neblina de ter acabado de acordar eram uma espécie de febre. O carro esperava-nos com o motor a trabalhar. O cheiro a gasolina, misturado com o cheiro a novo do interior do carro, misturado com o cheiro de cabedal ao sol, misturado com o cheiro do aftershave do meu pai, eram uma receita enjoativa que suportávamos porque, assim que saíamos da nossa rua, começava um mundo novo. A minha mãe tinha comprimidos contra o enjoo na mala. Eu era pequeno e tomava metade de um comprimido.



A viagem era muito longa. Quando ia depressa, o carro atingia os oitenta quilómetros por hora. A telefonia apanhava duas ou três estações com interferências. No início da manhã, o meu pai podia parar no café de uma terra de passagem e, porque tinham começado as férias, comprava-nos bolos.

Chegávamos à Praia de Santa Cruz no fim da manhã. Enquanto os meus pais e as minhas irmãs descarregavam o carro, eu era o menino e começava logo a brincar. Eu era sempre o menino. As minhas irmãs eram adolescentes e, muitas vezes, quando falavam de mim, chamavam-me “o menino”. As minhas irmãs. Essa era a única altura do ano em que saía da nossa terra e, quando falava delas, chamava-lhes “as nhas ermãs”. Nessa época, eu não sabia o que era o Alentejo, apenas sabia o que era a nossa terra. Desde que nasci até aos seis anos de idade, passei sempre uma semana de férias na Praia de Santa Cruz.



A primeira recordação da minha vida aconteceu durante uma dessas semanas de férias. Lembro-me de ter pensado “tenho quatro anos”. A minha primeira recordação é existencialista. Eu tinha uma bola, tinha carrinhos que deixava deslizar numa rampa, e andava sempre atrás das minhas irmãs. Ao pequeno-almoço, comia iogurtes em frascos de vidro que a minha mãe guardava e que reutilizava nas mais diversas funções. Eu tinha uma pá, um ancinho de plástico e um balde para brincar na areia. Eu aproximava-me do mar e fugia quando as ondas se estendiam, voltava a aproximar-me e voltava a fugir. Eu passava muito tempo debaixo do guarda-sol, sentado ao lado da minha mãe, admirado com a rocha que tem um buraco no centro e que é atravessada por toda a força do oceano.



Ao fim da tarde, no terraço, sentava-me com o meu pai em espreguiçadeiras sem colchão, sentávamo-nos diretamente sobre as molas, que ficavam desenhadas nas costas, e estávamos juntos diante do rugido do mar. Tenho a certeza de que esta voz que lembro, calma, era a sua voz a contar-me muitas coisas, a responder a tudo o que lhe perguntava. Tenho a certeza de que consigo lembrar-me do som da voz do meu pai nessas tardes. Esses eram dias certos.



O último ano em que passámos férias na Praia de Santa Cruz foi o ano em que entrei para a escola. Depois disso, a um ritmo mais ou menos constante, cresci. Os anos oitenta, os anos noventa, dois mil e agora. Ao longo deste tempo, estive em lugares que não consegui prever. Da mesma maneira, chegará um futuro que, neste momento, é imprevisível. Mas, ao longo da minha vida, quando tiver de falar de férias, tenho a certeza de que começarei por me lembrar dos dias em que aprendi o significado dessa palavra.







Fotografias de Patrícia Santos Pinto e arquivo pessoal

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© José Luís Peixoto

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