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SUÍÇA

  • José Luís Peixoto
  • há 15 horas
  • 4 min de leitura

Flutuar nas águas da Suíça








BASILEIA


Nas lojas, por todo o lado havia sacos impermeáveis em forma de peixe. Vendiam-se em vários tamanhos e em inúmeras cores. Chegámos ao elétrico com os nossos presos ao ombro, ninguém estranhou. Fizemos um caminho de várias estações, sem precisar de mudar de elétrico. Essa é uma viagem tranquila a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana. Era fim de tarde de um domingo de julho, o que acrescentava ainda mais serenidade a esse percurso.

Saímos onde nos tinham aconselhado e, aparentando conhecer bem os caminhos, seguimos um casal que também levava sacos impermeáveis em forma de peixe. Atravessámos uma ponte, caminhámos ao longo de um passeio e, pouco depois, já estávamos a descer em direção à beira do rio. Despimo-nos até ficarmos em fato de banho. Guardámos a roupa no saco, também o telemóvel, a carteira, dobrámos a ponta do saco-peixe como vinha explicado nas instruções e avançámos para a água.

O sol descia devagar sobre os edifícios, na primeira curva do rio. O calor ardente da tarde repousava já, a temperatura da água mantinha ainda esse morno. Submersos até ao peito, não muito longe da margem onde tínhamos entrado, apoiámo-nos nos sacos, que entretanto se tinham transformado em boias, e iniciámos a descida.

O Reno levou-nos à velocidade daquela hora. Às vezes, deixávamos o saco flutuar atrás de nós, preso por uma correia e dávamos algumas braçadas para sentirmos melhor a espessura delicada daquela água. Na margem do nosso lado, passávamos por gente que aproveitava os últimos raios de sol, ainda a tocar-lhes os rostos. Na água, éramos ultrapassados por indivíduos ou grupos, que também deslizavam, mas não tínhamos pressa. Pelo contrário, precisávamos de todos os instantes, não podíamos dar-nos ao luxo de desperdiçar um segundo sequer.

Depois de passarmos por baixo de uma ponte, avistámos as torres da catedral, as fachadas do centro histórico que ficam diante do rio. Como será viver numa daquelas janelas? Comparáveis ao barco que distinguíamos lá à frente, a fazer a travessia entre as margens ao longo de um cabo, sentimo-nos veículos aquáticos. Existíamos em equilíbrio com o Reno, a limpeza da sua água, a firmeza da sua força, com Basileia, a sua história tão bem tratada, a sua bela calma, e com os últimos instantes daquele fim de tarde memorável.



LUCERNA


Depois de mostrarmos o bilhete, entrámos no Lido. Passámos entre famílias e escolhemos o lugar para pousarmos as toalhas. A pouca distância de nós, estava uma festa de aniversário: um grupo de sexagenários tinha todas as condições, até uma mesa de campismo com um arranjo de flores ao centro, iam passar ali o dia a celebrar.

Na água, no Lago dos Quatro Cantões, deslizavam alguns praticantes de stand up paddle, as pranchas e os remos estavam disponíveis lá ao fundo. A várias dezenas de metros da margem, havia uma ilha insuflável onde se via pessoas a saltarem e brincarem. Noutra direção, havia uma plataforma, também uma ilha, corajosos nadavam até lá e, ao chegarem, deitavam-se debaixo de sol merecido.

Na véspera, naquele mesmo lago, tínhamos passado num extraordinário ferry, em direção ao teleférico que nos ergeu às alturas do monte Pilatus. Nessa travessia, não distinguimos este balneário mas, ali, olhávamos para cada navio que seguia esse trajeto e lembrávamo-nos do que tinha sido a beleza daquele caminho. Quando saímos do Lido, a poucas dezenas de metros, não perdemos todos os detalhes de embarcações como essa, expostas no enorme Museu Suíço do Transporte, o museu mais visitado do país, quando estamos lá percebemos claramente porquê. Mas isso foi depois. Antes de sairmos, aproveitámos ainda a piscina e escolhemos uma das várias opções para comer.








BERNA


Quando nos aproximámos do Marzili, estava uma enorme multidão a esvaziar barcos insufláveis, dezenas e dezenas de barcos. Aos poucos, mas de forma constante, novos barcos iam chegando à margem, vinham de longe e terminavam ali o seu curso. Era sábado de muito sol, calções molhados, chinelos a baterem na sola dos pés. Começámos a antecipar essa agitação logo lá em cima, quando contornámos o edifício do parlamento suíço e descemos as escadas, abruptas e longas. Ou talvez ainda antes, na praça, quando passámos por crianças a brincarem entre os repuxos que saíam do chão, crianças com água a escorrer-lhes pelo rosto, pelo peito, crianças alagadas, a refrescarem-se.

Cá em baixo, os marinheiros de barcos de insufláveis sabiam exatamente o que fazer, dominavam os métodos para esvaziar completamente a embarcação que, havia minutos, era a sua garantia de sobrevivência, sabiam como dobrá-la de maneira a acomodar essa lona no carro. Seguindo caminho, menos de um minuto depois, entrámos no próprio Marzili, um enorme parque, de livre acesso, com água do rio Aare à disposição dos banhistas, dirigida para espaços preparados, como piscinas naturais, onde era possível nadar de forma relaxada, sem ter de lidar com a corrente.




ZURIQUE


Caminhámos até ao Oberer Letten e juntámo-nos a todas as pessoas que, nas margens do rio Limmat, pareciam venerá-lo. O brilho do dia cintilava nessa superfície. A Suíça é um país pioneiro das estações de tratamento de águas. Esse facto fica claro nos rios e lagos em todo o seu território. As fontes que abundam pelas suas cidades disponibilizam água potável, uma grande mais-valia em dias de calor como os que passámos em Zurique.

Oberer Letten é um dos vários lugares que muitos habitantes de Zurique escolhem para mergulhar no rio, mas está longe de ser único. Um pouco mais abaixo no leito do rio, existe o Frauenbad Stadhausquai, por exemplo, que é uma plataforma flutuante de madeira, com todas as condições, para uso exclusivo das mulheres. Desde o século XIX que esse espaço permite às mulheres usufruírem do rio com especial à-vontade, apenas entre outras mulheres.

Por sua vez, no Oberer Letten, existem pessoas de todas as formas, provavelmente uma maioria de jovens. A música e a animação que atravessa todas as margens do rio Limmat são reflexo desse vigor juvenil. A solo ou em grupo, há quem salte de cima da ponte para dentro de água. Caem com grande estrondo, demoram alguns segundos a regressar à tona. A multidão já não os estranha.

Em volta, existem muitas outras atividades: campos onde se joga vólei sobre areia, um parque de skate, esplanadas onde se servem grandes canecas de cerveja. Mas tudo isso são segundas opções, o que junta toda aquela gente ali é o rio, as águas limpas e apetecíveis do rio.







Fotografias de Patrícia Santos Pinto

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© José Luís Peixoto

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