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Cidade do Panamá, Panamá

  • José Luís Peixoto
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura



A Cidade do Panamá, a partir do mercado



A maré deixou os barcos sobre lama negra, vigiados por abutres pousados no telhado do mercado. Mais logo, ao fim da tarde, as águas regressarão aqui e voltarão a dar mobilidade a estas embarcações de madeira. Agora, as suas cores garridas contrastam com a lama e com o céu pesado. O sol é filtrado por nuvens pesadas, o calor é ainda mais castigador. No caminho para o mercado, cruzam-se carros de mãos, vão cheios de gelo para lá, voltam vazios para cá.


As pessoas falam aos gritos entre bancas de peixe e de mariscos, são muitas as espécies que não conheço. Mas também há outros que conheço bem: camarón, calamares. Ao lado, nas bancas de comida que rodeiam o mercado, todos esses peixes e mariscos podem ser comidos em ceviche. Um copo de ceviche de peixe por um dólar e meio, um copo de ceviche de lagosta por quatro dólares. No Panamá, as notas em circulação são as americanas, com a figura do George Washington e de todos os outros mas, muitas vezes, se houver troco para receber, as moedas são nacionais, panamenhas: curiosa e simbólica metáfora.


A partir deste mercado, olhando para um lado, vê-se o centro histórico, o casco antiguo, as torres da igreja de São Francisco de Assis e da catedral, as casas parecem ancoradas no tempo, no passado, mas também ancoradas neste dia, neste agora, com janelas abertas para a memória dos panameños e para a imaginação dos turistas. As ruas, feitas de pedra antiga, guardam ecos e rumores. Depois do calor abrasador, ao fim da tarde, a luz cai suave sobre as praças, como um véu, silêncio ou sal. Há alguma coisa sem palavras que respira nas fachadas gastas. Este tempo acende as cores vivas dos muros. E a brisa, vinda do Pacífico, traz consigo a promessa de um horizonte sem fim. Assim é o casco antíguo, onde se caminha por ruas com poucos carros, entre fachadas coloniais. De manhã, as crianças vão para a escola, uniforme e malas de couro. À noite, turistas estrangeiros entram ou a saem de bares com orquestras ao vivo, onde se dança salsa e se transpira.


Mas, também a partir deste mercado, ainda na direção do casco antíguo, dirigindo o olhar ligeiramente para o lado, toca-se no espaço onde está El Chorrillo. Esse é um dos bairros mais antigos e emblemáticos da Cidade do Panamá. Condensado de história, as primeiras pedras do bairro foram colocadas com a intenção de construir abrigo para os trabalhadores que construíam o Canal do Panamá, no início do século XX. As suas ruas estreitas e edifícios humildes contam histórias de resiliência e luta. No entanto, El Chorrillo também carrega algumas das profundas cicatrizes da invasão norte-americana de 1989, tendo sido um dos lugares mais afetados pelos confrontos e tendo sofrido considerável destruição. Hoje, El Chorrillo tem a fama de ser um bairro perigoso, com um quotidiano de violência e pobreza. São muitos os murais que mantém a memória, que mantém viva a sua resistência cultural. Projetos sociais e culturais têm procurado revitalizar a zona, oferecendo novas oportunidades aos jovens e promovendo o orgulho local. Esses são exemplos de como a comunidade procura manter vivos os valores da solidariedade e da criatividade, a esperança também. Entre fachadas gastas, algumas em ruínas, ouve-se a música dos rádios de pilhas, há crianças a brincar nas ruas.


Mas, ainda a partir deste mercado, olhando para o outro lado, vê-se o distrito financeiro, fileiras de arranha-céus, várias dezenas com mais de 200 metros de altura, onde são negociadas muitas das transações financeiras que têm sido uma das principais fontes dos indicadores económicos do país. As fachadas de vidro e aço, a “modernidade”, acolhem a realidade da especulação financeira. Muitos destes arranha-céus não foram construídos para serem ocupados de facto, mas sim para representarem ativos de valorização rápida em carteiras de investidores não-nacionais. A cidade tornou-se num terreno apetecível para fluxos de capitais que pouco contribuem para a economia real, alimentando um mercado inflacionado e artificial. A bolha financeira distorce o desenvolvimento urbano, cria ilhas de riqueza, como é o caso dos grandes compounds (condomínios ou povoações?) fora da cidade, cercados de arame farpado, vigiados por guardas armados, enquanto bairros históricos e comunidades locais permanecem por sua conta. A especulação transforma o horizonte da cidade num catálogo de investimentos anónimos, o valor dos edifícios importa mais do que as vidas que poderiam preenchê-los.


Turismo, vida real, especulação financeira. Vista daqui, a Cidade do Panamá parece o famoso canal que liga os oceanos Atlântico e Pacífico, também esta liga três mundos, são contemporâneos, estão quase sobrepostos, mas têm diferenças irresolúveis. A seguir ao Brasil e à Colômbia, o Panamá é a terceira sociedade mais desigual da América Latina.



Texto e fotografias de José Luís Peixoto

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© José Luís Peixoto

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