ÉVORA, PORTUGAL
A cidade da memória

No Alentejo, rodeada por campos solenes, ergue-se Évora, património branco, caiado, memória de séculos e de gerações encadeadas. Évora define-se por nomes que ressoam ao longo de séculos, monarcas que por aqui passaram, doutores que se destacaram nas cátedras da segunda universidade mais antiga do país, mas Évora também se define pelas pequenas histórias, o povo anónimo, tantas vezes heroico.
A Praça do Giraldo é o centro de um mundo. Quem tenha qualquer ligação a Évora, reconhece lembranças quando aqui passa. Hoje, há o bulício dos turistas que chegam à cidade, que olham em volta, surpreendidos, ou que aproveitam o descanso das esplanadas. Eu, também surpreendido, também a olhar em volta, recordo homens com chapéus de aba larga, juntavam-se debaixo destas arcadas, tiravam os relógios do bolso, seguravam-nos na palma da mão, as correntes esticadas, todos os seus gestos exibiam confiança. Eram negociantes, explicava-me o meu pai, eram donos de terra e de gado.
Muito antes de eu nascer, no início da década de 60, o meu pai fez a recruta em Évora. Quando ele me contava essas histórias, esse tempo parecia-me impossível. Hoje, mais velho do que ele era, sou capaz de imaginá-lo, novo e fardado, a caminhar pelas ruas de Évora. Sou também capaz de recordar a sua voz a contar-me aventuras, a explicar-me como era a cidade quando aqui andava nessa imensa descoberta. Repetia essas descrições nos dias em que eu o acompanhava em trabalhos, ou quando vínhamos juntos à Feira de São João.
Ainda hoje, em casa da minha mãe, está a caixa de joias que o meu pai lhe fez em madeira, durante os anos do namoro. Na tampa dessa caixa, com dedicação, o meu pai talhou o templo romano, as suas colunas. Esse monumento da história de Évora deu origem a um artefacto da história da minha família.
Évora abrange toda a história. Desde antes da presença romana, as pedras do megalíticas anteriores ainda às pedras romanas, passando pela Igreja de São Francisco, que terminou de construir-se no início do século XVI. E, num passado mais recente, mas também passado remoto já, houve um fim de tarde em que eu estava sentado num banco do Jardim Público, fazia companhia à minha avó, esperávamos o meu pai. E, como tínhamos tempo, levei-a a conhecer a Igreja de São Francisco e a Capela dos Ossos. Sinto orgulho por, com essa idade, quinze ou dezasseis anos, ter conseguido mostrar-lhe esse lugar tão incrível.
Évora abrange toda a história: a Biblioteca Pública, o Teatro Garcia de Resende, o Palácio de Dom Manuel, o meu pai na tropa, o meu pai a contar-me as suas aventuras, a minha avó e eu no jardim.
Ontem, acordei com a natureza, os pardais que atravessam o fim do verão, o rumor dos insetos na distância dos campos. Mas, pouco depois, estava na Praça do Giraldo. Como um encontro entre o futuro e um tempo sem tempo, acordei a pouca distância da cidade, num hotel que propõe a sofisticação e o conforto do design, a consciência da sustentabilidade e o Alentejo profundo, sobreiros, oliveiras, ovelhas a pastar. Ainda com a memória dessa paz, estacionei diante do aqueduto e, com a Patrícia, entrei nas ruas do centro histórico, Património Mundial da Humanidade reconhecido pela UNESCO.

Conto à Patrícia as histórias que o meu pai me contou, mostro-lhe a minha Évora. Das vezes que aqui estivemos juntos, faltou-nos esta disponibilidade, fundamental para apreciar tudo o que nos rodeia. Ainda assim, neste passeio, com frequência, é a Patrícia que, depois de apontar a máquina e fotografar, me mostra algum detalhe em que eu nunca tinha reparado nesta cidade sem fim.
Avançamos pelas ruas vivas, fazemos pausas em reservas de um silêncio que chega desde o fundo do tempo. Um estalido dos joelhos é suficiente para ecoar por toda a basílica, pela Sé de Nossa Senhora da Assunção. Esta é a maior catedral medieval portuguesa. A luz entra por uma janela redonda, incandescente, atravessa a distância e acerta no altar, onde é refletida pelo dourado. Desde a sua construção, entre os séculos XII e XIII, quantas promessas e súplicas foram feitas neste corredor?
Passamos ao claustro e reencontramos o dia em toda a sua leveza. As camélias estão abertas, as laranjeiras estão cheias de fruta, são vivas as cores do pátio. Pequenos pardais descansam nesta trégua, o seu mundo é idílico.
Lá em cima, tocam os sinos como se nos chamassem. Subimos por uma escada de caracol que parece não terminar. O aperto dessa longa passagem é compensado pelo céu inteiro. No cimo da torre da catedral, absolutamente livres, temos diante de nós toda a cidade e, depois, lá ao fundo, todo o Alentejo, todo o mundo.
Texto de José Luís Peixoto
Fotografias de Patrícia Santos Pinto



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