Cairo, Egito
No centro da cidade gigante
O início do Egito toca momentos essenciais da experiência humana, remonta a um período que se calcula próximo do quinto milénio antes de Cristo. Com frequência, o território do Egito é assinalado como um dos berços da civilização. Aqui, tiveram lugar alguns dos grandes momentos da evolução da humanidade. Esse é o caso da agricultura, que prosperou nas margens férteis do Nilo; da escrita, hieróglifos que ainda hoje podem ser lidos; do governo, centralizado no faraó; da religião, organizada em estruturas bem definidas, com clero hierarquizado, rituais e mesmo monumentos, dos quais as pirâmides são exemplos bem conhecidos. Apesar destes fundamentos, existe também o país contemporâneo, a pulsar de entusiasmo, referência na região e no mundo atual. O Cairo é a sua inegável capital, metrópole estrondosa.
Se não soubéssemos que se trata da maior cidade do mundo árabe e de todo o continente africano, bastaria olharmos para o trânsito de qualquer uma das suas estradas para chegarmos facilmente a essa conclusão. Hoje, conta com um pouco mais de dez milhões de habitantes só na cidade do Cairo. Considerando toda a área metropolitana, são mais de vinte e um milhões. Toda essa gente precisa de deslocar-se e, por isso, as vias principais estão congestionadas a todas as horas. À noite, a partir de pontos altos, essas linhas estão marcadas na distância com milhares de luzes vermelhas ou brancas, consoante o sentido do trânsito.
Há veículos de todos os tipos, motos bicicletas, carros e camionetas, quase sempre moldados por anos de uso, pelo difícil estado do terreno, vergados sobre o peso de enormes cargas, produtos diversos ou passageiros. Uma parte desse tráfego dirige-se a Khan El Khalili, o maior mercado do Cairo, o mais famoso do país, o mais famoso de todo o Médio Oriente.
Também aqui há história. A sua origem remonta ao século XIV, quando o sultão ordenou a construção de um espaço de descanso para os comerciantes. Escolheu um antigo cemitério para tal propósito. A partir daí, instalou-se e desenvolveu-se a imensa profusão que hoje aqui encontramos.

Num labirinto de ruas e ruelas, há ofertas vistosas: desde os alimentos, sempre com gostos e aromas da região, aos mais diversos produtos saídos das mãos de artesãos. Homens batem em latas com martelos pontiagudos e, após algumas esquinas, passamos por lojas de vidros, enormes garrafas e jarros que alguém soprou, de todas as cores, com bolhinhas de ar no interior, perfeitas imperfeições; depois, lojas com objetos esculpidos em osso de camelo, cruzes dos cristãos coptas, por exemplo; depois, chá, especiarias, caixas profusamente esculpidas em madeira, joias, tudo, ou quase tudo.
Também com origem num cemitério, outro ponto emblemático do Cairo é a chamada Cidade dos Mortos. Fundada sobre um cemitério do século VII, com origem na conquista muçulmana do país, cresceu a partir da ocupação de famílias que aqui se instalaram. Hoje, a vida deste enorme bairro, onde vive cerca de um milhão de pessoas, acontece entre túmulos. Multidões de crianças brincam livremente, habituadas a esse cenário.
Os séculos de presença muçulmana construíram os fundamentos do Cairo contemporâneo. As grandes mesquitas dominam a cidade e, na vida quotidiana, os sinais dessa devoção são constantes. Até o próprio corpo dos egípcios é literalmente marcado por isso, como acontece com as manchas da testa dos homens, atribuídas à quantidade de vezes que se prostram para rezar e assentam a testa no chão. Mas há outras formas de fé que também constituem o Egito, é esse o caso dos cristãos coptas que, apesar de minoritários, são parte da maior comunidade cristã do Médio Oriente e representam cerca de 15% da população, um número considerável neste grande país. A religião é um dos grandes temas do Egito contemporâneo. A demonstrá-lo está a quantidade de livros publicados sobre o tema, a grande maioria das edições de um dos principais mercados livreiros da região. A língua escrita no Egito é o árabe padrão e, por isso, os livros que aqui se publicam têm influência em todo o mundo árabe. Mas há muitos outros temas que agregam os pensadores desta região. Se passarmos pela praça Tahrir, por exemplo, estaremos naquele que foi um dos epicentros da chamada Primavera Árabe, movimento político que marcou o mundo nas últimas décadas.
O Egito era e continua a ser. Um país gigante no espaço e no tempo. Essas também são as proporções da sua capital. O centro do Cairo é o centro de uma cidade, de um país e de um mundo.
Texto de José Luís Peixoto
Fotografia de Maria Peixoto Martins



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