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MALTA

  • José Luís Peixoto
  • há 11 minutos
  • 5 min de leitura

Trouxe comigo um arquipélago

 




Vilhena e Pinto

 

Como português, quando ando pelo mundo, é comum cruzar-me com a nossa história. É sempre fascinante constatar a forma como houve gente que saiu deste retângulo no oeste da Europa, tantas vezes fechado em si próprio, para fazer vida e ter impacto nos mais díspares pontos do vasto mundo.

Em Malta, no centro do Mediterrâneo, incrivelmente, um taxista perguntou-me de onde sou e, logo a seguir, antes de referir Cristiano Ronaldo, disparou os nomes de Vilhena e de Pinto. Soube então que António Manuel de Vilhena e Manuel Pinto da Fonseca foram dois grão-mestres da Ordem de São João, o posto mais alto da hierarquia desta ordem militar cristã, que geriu os destinos de Malta durante cerca de 250 anos, entre os séculos XVI e XVIII.

Apesar de toda a história que teve lugar em Malta antes e depois desse tempo, os detalhes dos cavaleiros são os mais repetidos. Esse foi o período de maior prosperidade e glória e, para minha informação, fiquei a saber que, ainda hoje, Vilhena e Pinto são dois grão-mestres muitíssimo estimados, que deixaram grande obra e que contribuíram para a prosperidade de Malta.



Caravaggio


São João Batista é a figura central de uma das principais obras-primas de Caravaggio, que se encontra exposta no oratório da Co-Catedral de São João, em Valeta, a capital de Malta. Esta referência constante ao homem que batizou Jesus deve-se, claro, à presença da ordem com o seu nome. No óleo de Caravaggio, está representado o momento mais dramático da vida do pregador. Num típico chiaroscuro de Caravaggio, encontramos São João com o rosto no solo, o pescoço já ferido, enquanto Salomé segura a bandeja que sustentará a sua cabeça decapitada.

Conta-se que Caravaggio chegou a Malta fugido. Aqui, foi acolhido e pintou diversas telas, como é o caso desta, a mais notável. Poucos anos depois, também fugido, desapareceu de Malta, escapuliu-se pela história e pelas lendas.





Bicicleta


Os habitantes da pequena ilha de Gozo não tratam a sua principal povoação por Victória. Esse é o nome oficial, usado pelos forasteiros. Os locais chamam-lhe Rabat, que, na língua maltesa, muito influenciada pelo árabe, significa “subúrbio”. Foi aí que recebi a bicicleta alugada e comecei a pedalar. Após algumas ruas, saí da cidade e, numa tarde de sol, segui por estradas amplas. Senti o vento e apreciei a paisagem: a distância dos campos, longas extensões de castanho claro, quase branco, a tocarem o céu, azul límpido naquele dia.

Atravessei pequenas povoações de pedra, todas as casas da mesma cor, os mesmos tons do calcário, o sol a assentar diretamente nessa superfície. E cheguei ao ponto em que comecei a descer em direção à baía. Aí, o horizonte era já o Mediterrâneo. Lá em baixo, esperavam-me as rochas, as águas claras e mansas, as vozes das pessoas que boiavam na baía de Dwejra. Eu deslizava na tarde, avançava no sentido de toda essa paz.



Mgarr ix-Xini


Cheguei de barco. Assim que o motor parou, ficou apenas o silêncio. Saí descalço. Enquanto avançava, escolhendo o melhor caminho pelo chão de cimento e, depois, de pedras nem sempre lisas, era observado por pessoas que estavam sentadas à frente das suas casas. O fim de tarde respirava serenidade, o descanso de tudo e, por isso, essas pessoas estavam ali, com a única tarefa de observar. Eram pescadores e as suas famílias. Noutros momentos, saíam para o mar nos pequenos barcos que flutuavam naquele pequeno cais, ou nos tradicionais barcos malteses de pesca, coloridos, que tinham guardados em garagens de portões abertos àquela hora.

Debaixo desses olhares, desci por uma escada com corrimão de metal e entrei na água da baía, juntei-me a quem já lá estava, com água pelos ombros. A temperatura e a densidade da água criavam um mundo aprazível na minha pele. Havia pássaros pousados nas rochas que se erguiam dos dois lados, também eles tinham vindo contemplar as atividades dos banhistas.





Restaurante Ir-Rizzu


Decidimos ficar sentados na esplanada, junto à água noturna, coberta de pequenas embarcações ancoradas. Os habitantes de Marsaxlokk aproveitavam o serão para passear, muitos deles cumprimentavam o empregado que nos servia, que não interrompia o sorriso ao virar-se para um lado e outro. Por sua sugestão, começámos com algumas postas finas de peixe não cozinhado, apenas cobertas por um molho. Em diversas garfadas, tivemos de fechar os olhos para sentir todas as nuances do sabor, como se viajássemos nele. Depois, partilhámos um peixe ao sal. Assistimos à maneira como esse empregado incendiou a crosta de sal que o protegia e, logo a seguir, como a retirou, parecendo que esculpia o peixe, e, também, como o dividiu pelos pratos, extraindo cada espinha com a ponta dos talheres. Durante esse tempo, conversámos, as nossas vozes somavam-se àquela hora. Havia as luzes de Marsaxlokk, luzes de aldeia, e havia as estrelas.



Mulberries


Houve a primeira impressão, à noite, chegado do aeroporto e da viagem. O dono estava à espera para abrir a porta, para dar as explicações e levar ao quarto. Então, impressionou-me o pátio interior, a pedra, o ambiente de palácio ou de solar rural. Após essa noite, ao despertar, houve o impacto causado pelos campos em volta, a idade das oliveiras, os pequenos pardais que enchiam a manhã. Ao descer para o pequeno-almoço, havia todos os detalhes da decoração, escolhidos um a um, colecionados. A ilha de Malta, as suas condições e a sua história, estavam também na mesa do pequeno almoço, os produtos do mar e da terra, até a loiça e os talheres.

Soube mais tarde, em conversa com Jesabel, que este é o projeto que tem com o marido há vinte anos, Aaron, o arquiteto que abriu a porta na véspera. Compraram a casa em ruínas e reformularam-na, procurando as pedras em falta, as telhas certas, adquirindo em segunda mão os canos de cerâmica que mais se pareciam com os originais ou mandando fazer o que já não se encontravam. O resultado é esta hospedagem neste edifício com uma estrutura do século XVII, nas imediações de Zabbar, que permite uma requintada experiência da ruralidade maltesa.



Marsaskala


Era uma quarta-feira de manhã na baía de São Tomás, setembro, pouco passava das nove horas. Havia dezenas de homens e mulheres, todos com mais de sessenta, setenta anos, todos com água pelo pescoço. Eram dezenas de cabeças a falarem. As suas vozes discorriam histórias, diálogos animados em maltês. Como em todos lugares onde submergi o corpo em Malta, a temperatura da água era uma espécie de massagem, um afago que transformava o entendimento do mundo. Passei ali algumas horas com eles. Durante esse tempo, tive o privilégio de também eu ser um homem de sessenta, setenta anos, na manhã de uma quarta-feira de setembro, na baía de São Tomás, em Marsaskala.





Fotografias de Patrícia Santos Pinto

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© José Luís Peixoto

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