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  • José Luís Peixoto

FEIRA DO RELÓGIO, LISBOA

O povo



A música da telenovela, numa versão cigana, com vibratos de voz e guitarras varridas por unhas grandes, chega do interior de uma carrinha Ford Transit. As portas de trás, abertas, libertam essa algazarra na força máxima das colunas do auto-rádio e deixam cair meio corpo abatido pelo sol. Daqui, apenas se distinguem as calças e a barriga de um homem deitado de costas no interior da carrinha, talvez em tronco nu. Está muito sol hoje.


Ao lado de tantos, desço a Feira do Relógio. Como um céu remendado, as lonas esticadas protegem-nos desse sol ácido. Desvio-me das cordas que suportam as tendas, desvio-me das estacas de aço e daqueles que já sobem, carregados de sacos ou de olhares receosos, apontados às camisolas penduradas, aos maços de meias a cinco euros, às sapatilhas que uma mulher com buço garante serem de marca.


Qualquer-coisa qualquer-coisa ao Senhor, Ele faz maravilhas, canta um homem que leva uma Bíblia na mão, uma bandeira de Portugal ao ombro e um despertador pendurado ao pescoço. Como nós, passa pelo meio das bancas de perfumes, ferramentas da construção civil, óculos de sol e óculos de ver ao perto que se experimentam logo ali. Um cigano de luto, barbas a cobrirem-lhe o pescoço, cabelo comprido num chapéu já sem forma, grita mais alto, rasga a voz. Tem os tornozelos submersos por um monte de roupas que uma roda de mulheres atira ao ar. Os vendedores de mobílias estão refastelados nos sofás, entre arcas de enxoval, entre quadros de montanhas, cascatas, praias ao pôr-do-sol.


Já não sei distinguir a idade destas raparigas que passam com grandes argolas nas orelhas, molas de plástico a prenderem os cabelos, maquilhagem, vestidos dourados ou tops com rendas, blusas com a palavra Love, cintos de enormes fivelas, calças desbotadas de propósito. Equilibram-se em sapatos muito altos que pousam no alcatrão, entre latas amassadas, pedaços de caixotes, restos de sacos empurrados pela aragem. Terão quinze ou dezanove anos talvez, levam segredos essas raparigas, levam enredos que lhes fazem cócegas no céu da boca e que discutem enquanto caminham, amparadas umas nas outras, engasgando-se em risinhos, tapando a boca ou não, ignorando o mundo inteiro, com a exceção de alguns rapazes ligeiramente mais velhos, cabelos com gel, brinco de brilhante, corrente de prata ao pescoço, camisola agarrada ao corpo, calças de ganga rasgadas, sapatilhas novas de futebol de salão.


Por baixo do viaduto, o barulho da multidão é mais alto, faz eco, as vozes partem-se ainda mais e misturam-se ainda mais. Homens pendurados em copos de vinho tinto e oleoso, copos de plástico cheios pela bica de pacotes; mulheres a transpirar diante fogões, botijas de gás, bifanas, entremeadas e couratos; mulheres com sacos pousados aos pés, malas presas no ângulo do braço, a beberem cerveja pela garrafa e a fumarem; homens a beberem cerveja pela garrafa e a fumarem; crianças a beberem latas de Sumol por uma palhinha, rapazes de seis ou sete anos com crista à punk. E um cego a passar, virando-se para um lado e para outro, como perdido, como aflito, a repetir uma lamúria e a chocalhar moedas num copo alto e sujo do McDonalds, olhos brancos, grandes bolas brancas e húmidas no lugar dos olhos.


Há uma laranja de cor muito viva que escapa das mãos de uma vendedora, rola pelo alcatrão, entre pés, imparável, passa diante de uma criança só de fraldas e sandálias, a segurar um iogurte e a tentar acertar com a colher na boca. De cabelo oxigenado e voz sem hesitações, a vendedora tem um avental pesado de trocos à volta da cintura e uma blusa que lhe deixa os ombros à mostra, num tem tatuado Thug, no outro tem tatuado Life.


Enquanto estou a escolher nêsperas, um velhote, pele de napa enxovalhada, começa a falar para mim em crioulo cabo-verdiano, badio. Sorrio e respondo-lhe também em crioulo. Digo-lhe qualquer coisa que tem a ver com preços e fruta mas, para lá das palavras, aquilo que lhe quero dizer é que estou feliz, muito feliz, por estar de volta e, finalmente, poder encher o peito de ar entre os meus, entre aqueles a que pertenço.



Texto e fotografia de José Luís Peixoto

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