• José Luís Peixoto

BOGOTÁ, COLÔMBIA


Paloquemao






Não é comum que o mundo apresente cores tão vivas e contrastantes. Vermelhos mesmo vermelhos, amarelos que iluminam uma auréola à sua volta, laranjas inequívocas, cor e fruta. No Mercado de Paloquemao, em Bogotá, as cores são alimentadas pela fertilidade tropical desta terra. Não sei o nome de todos os frutos que vejo, da mesma maneira que não conheço todas as variedades de batatas andinas. A natureza inventa formas inesperadas.



Avanço por corredores entre caixotes e sacas a transbordar de vegetais, entre cachos de bananas empilhados em bancas. Também as bananas são de muitas espécies, enormes para gigantes, ou pequenas, brinquedos de crianças, com todas as medidas possíveis entre esses extremos, doces, brilho de açúcar mascavado, ou fritas e esmagadas sob a forma de patacones, acompanhamento de carne.



Ao longo dos corredores, preciso de me desviar dos homens que empurram carros de mão entre a multidão de corpos, vão carregados de tudo. Tão diversos como as batatas e as bananas são os abacates. Quem poderia imaginá-los em tantos tamanhos? Alguém abriu um abacate ao meio com a navalha, é um exemplo no topo de uma construção precisa ou de um monte. A partir do caroço, alastra um amarelo esverdeado que, ao chegar à casca, já é verde indiscutível. Haverá cristais de sal fino polvilhados sobre aqueles abacates cortados em talhadas, alguém irá segurá-los com os dedos antes de mordê-los e sentir a sua manteiga a desfazer-se.



A la orden, dizem os vendedores à minha passagem. Em simultâneo, ouve-se essa expressão vinda de muitos lados, em vozes de diferentes tons, a la orden, a la orden, essas palavras são repetidas para quem caminha e, durante um instante, pousa o olhar em algum produto. A luz que atravessa as nuvens lá fora é decantada ao atravessar também este teto transparente. Chega limpa, filtrada. Parece-me que esta luz aviva o aroma das diferentes tonalidades de verde, das ervas e das especiarias a serem pesadas ao grama: anis, pimentas infinitas, mostarda em pó ou em grão.



Ainda nos longos corredores dos vegetais, passo por dois homens a descascar ervilhas. Têm os rostos livres para olhar em volta, os dedos sabem fazer esse trabalho sem ajuda, as unhas distinguem os veios das cascas, conhecem bem o tenro daquelas pequenas esferas. Esse é o tamanho dos tomates mais pequenos, são como bagas, cabem muitos numa colher de sopa. Ao lado, os nabos são imensos, como raízes de árvores centenárias.


Passo depressa pelas carnes, pelo cheiro entranhado a sebo, por um homem que afia facas, riscando esse ruído nos minutos. Chego ao ar livre, à manhã, chego à área das flores. Crianças, filhos de vendedores, correm entre as pernas do povo, este é o seu lugar para brincar. Talvez essa alegria seja a melhor descrição desta exuberância. Falar de cores, formas e perfumes é insuficiente.



No balcão de uma barraquinha, entre gente a desembrulhar tamales de folhas de bananeira, o cheiro do café, o rugido da multidão, peço uma arepa e o sumo de um daqueles frutos por que passei e cujo nome desconheço.




Texto e foto de José Luís Peixoto

© José Luís Peixoto

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