• José Luís Peixoto

FEIRA DO LIVRO DE LISBOA, AUTOBIOGRAFIA

Atualizado: Set 10

Autobiografia




Tinha dezanove anos, descia o Parque Eduardo VII, junho e sábado de feira do livro. Os pés não tocavam o chão, afundavam-se numa matéria que não sentia. Acreditava-se observado pelos livros e envaidecia-se debaixo dessa atenção. A altivez das suas certezas contornava vultos que, por insegurança, caminhavam mais devagar, subindo ou descendo. Eça de Queirós estava com cinquenta por cento de desconto, Fernando Pessoa apresentava-se ao monte, a cem escudos, todos os heterónimos misturados. José passava por isto, reconhecendo-lhe o cheiro, mas sem intenção de deter-se.


Estava em Lisboa havia dez meses, era dono da cidade. Chegara em setembro, na segunda semana de aulas, aluno universitário. O dinheiro que o pai mandava permitia-lhe um quarto a pouca distância do Cemitério do Alto de São João, na casa de uma senhora de idade, primeiro andar, napperons de renda em cima de tudo. Almoçava na cantina, jantava cigarros, fumou durante três anos.


Ouvia mais os seus pensamentos do que o altifalante a anunciar sessões de autógrafos e, por esse motivo, abrandou diante de uma fila com pessoas altas e baixas. Não entendeu logo o propósito daquela reunião. Investigador, seguiu essa linha com o olhar até um homem sentado a uma mesa, um humano que levantava o rosto para quem tinha à frente e que, logo depois, se inclinava sobre um livro, riscando. José já tinha visto fotografias de Saramago, não se impressionou com os traços mais evidentes, interessou-se sobretudo pela cor, pelo volume e pelo movimento. O escritor usava um desses casacos cor de rato, apesar da primavera estival, mas a pele era mais morena do que imaginara, com menos amarelo, comparável à pele de homens que José encontrava nos transportes públicos. Além disso, existia no real com a massa de qualquer outro objeto, diversos sombreados atestavam-lhe o recorte. E, claro, mexia-se, desempenhava movimentos que, tudo indicava, se podiam comparar com os de outros indivíduos nas mesmas condições.



Nem o próprio José soube quanto tempo passou a vigiar Saramago. A contagem de minutos baralhava-se naquele cruzamento de fronteiras. Num instante, olhava para o escritor, analisava os incríveis detalhes da sua contemporaneidade, e, no instante seguinte, ou a meio desse, via o seu próprio rosto naquele lugar, a sua presença naquela presença. Ali estava uma imagem do seu futuro, não tinha dúvidas. Também ele seria um escritor assim, talvez um pouco mais importante, com uma fila mais longa para autógrafos. Escutava vozes do futuro, infelizmente o autor não terá possibilidade de assinar todos os livros, pedimos compreensão. José não se aplicava nos estudos da faculdade porque sabia que iria ser escritor e, mais, sabia com exatidão o tipo de escritor que iria ser, começaria por ser o melhor da sua geração e, logo a seguir, universal e intemporal. Estava prestes a terminar o primeiro ano, chumbaria a metade das disciplinas, mas isso pouco importava; em breve, estariam a estudá-lo a ele. Interpretando circunstâncias, os ossos de José aproximaram-se da barraquinha da editora. Já nesse tempo não saía de casa sem caderno, pousou-o em cima da banca e, sem novidade, folheou diversos romances de Saramago, arqueando as sobrancelhas em determinadas frases, indeciso, leitor, como se considerasse a compra. No instante certo, marcado por uma sineta silenciosa e invisível, nem a mais, nem a menos, levantou o caderno com naturalidade e, alargando o espaço entre o polegar e o indicador, agarrou o livro que estava por baixo; deu dois passos atrás e afastou-se. Tão fácil roubar livros na feira do livro, José respirava sem pressa. Entrou na fila dos autógrafos, despreocupado, os sons e a claridade começavam a amenizar-se, os pombos planavam. Sentiu então, de repente, uma massa de dedos a apertar-lhe a nuca, o que é que levas aí?


Nesse instante, começou a gritaria. O primeiro gesto de José foi entregar o romance, como se queimasse, mas o livreiro precisava de catarse, desforrava-se ali de todos os furtos que não conseguira caçar. Ao fazê-lo, furioso, imaginava larápios a desfrutarem indevidamente de enredos bem urdidos, a deleitarem-se com metáforas à borla. E toda a gente olhava para José, a fila inteira, quem passava, os vendedores das outras editoras e, depois de algumas pessoas se afastarem, o próprio Saramago.

E, mesmo à distância, os olhos por detrás das lentes, óculos de armação grossa, Saramago reconheceu-o imediatamente. Essa constatação foi um raio. Perdeu a força no autógrafo, pousou as mãos sobre a mesa, desnecessárias para o espanto. Se abriu ligeiramente a boca, se franziu a testa, ninguém reparou. Por fora, Saramago manteve compostura e gestos. Por dentro, onde se imaginava um discurso estruturado, brotou uma desordem selvagem de memórias e perguntas. No interior das suas opiniões, soava um alarme.


O corpo de José vergava-se debaixo dos olhares, rosto no chão, ombros dobrados pelo enorme tamanho dos braços estendidos. No centro do escândalo, não tinha ordem de libertar-se do livreiro, que o segurava pelo cotovelo, a mão como uma algema de ferro. Polícia, polícia, o livreiro repetiu essa palavra em três ou quatro frases diferentes, ameaça de esperarem juntos pela polícia.



Saramago arrastou a cadeira com as costas, pediu licença a quem estava diante de si, levantou-se e caminhou em direção à cena. Ao longo do caminho, foi puxando os olhares. Perto, a poucos passos, abrandou até suspender-se, e precisou de aproveitar a riqueza dos detalhes, as pupilas pareceram insuficientes para ver com a intensidade que desejava. Essa fome não era evidente para os outros. José, preso nos seus dezanove anos, não tinha maneira de interpretar o rosto de Saramago, que encarava ali pela primeira vez. Em toda a multidão, ninguém possuía esse poder de análise. Apenas Saramago, que reconheceu José no primeiro momento, o seu olhar a tocar a imagem de José, como dois objetos sólidos a tocarem-se; apenas Saramago identificava o tamanho do que estava a acontecer.

Porque precisava de dar continuidade ao tempo, esperava-se um novo instante, Saramago pediu o romance ao livreiro incrédulo. Ao recebê-lo, demonstrando sentido prático e competências sociais, Saramago consolou o homem, demonstrando empatia com as suas mágoas, mas mostrando-lhe outro lado, tratava-se apenas de um rapaz que queria ler, raro rapaz nos dias que correm, todo o público sorriu perante esse comentário. Então, como se não soubesse, Saramago perguntou o nome a José, a sua voz mudou de timbre, atravessou dimensões. Sem entender os motivos imediatos e profundos de Saramago, José respondeu sem força, desesperado. Saramago assistiu muito atento à articulação dessas duas sílabas, avaliou-o no breve cruzamento de olhares e, regressando ao mundo, escreveu uma dedicatória rápida, com a simpatia de. O obrigado não se ouviu.


Saramago continuou a olhá-lo, comovido, assombrado, orgulhoso. Na ignorância, José estava muito longe dessas apreciações. Desceu a feira do livro sem olhar para trás, ganhando embalo, apressando o passo, apressando o passo até correr. E a Avenida da Liberdade, o Rossio, a Rua Augusta, parou na Praça do Comércio, no Cais das Colunas, o rio não o deixou prosseguir.


Nunca leu esse ou qualquer outro livro de Saramago, humilhação secreta, profunda dor. Acreditou que preferia ter sido levado pela polícia, interrogado na esquadra, ter respondido a todas as perguntas do cassetete. Convenceu-se de que Saramago apenas aproveitou a oportunidade flagrante, armou-se em herói, grande coisa. Numa visita a Bucelas, fim de semana sim, dois fins de semana não, abandonou o livro à sorte do pó. É possível que a mãe, influenciada pelo boletim paroquial, lhe tenha dado sumiço na época de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991.


Saramago voltou com dificuldade aos autógrafos, cabeça cheia. Precisava de estar sozinho para compreender melhor aquele acontecimento, aquele encontro, reencontro, para refletir, para contemplar e apaziguar o segredo desmedido que suportava.





Texto de José Luís Peixoto, in Almoço de Domingo, publicado em Portugal pela Quetzal, nos países de língua castelhana pela Penguin Random House, na Roménia pela Pandora M, no Brasil pelo clube TAG e, em 2022, será publicado para o circuito livreiro pela Companhia das Letras. Também em 2022, será publicado na Sérvia e em vários outros países.