• José Luís Peixoto

PAÇO DE ARCOS, PORTUGAL

Vales férteis de Paço de Arcos



Neste último ano, tenho viajado bastante. Não precisei de apanhar aviões, barcos ou comboios, bastou-me segurar a trela da Mira e segui-la. Com dois anos, tem a energia no máximo e adora puxar-me. Firma as patinhas no chão e, apesar de pequena, acabo a transpirar quando a contrario. Por isso, o mais fácil é deixá-la decidir o percurso.


Foi assim que descobri os vales de Paço de Arcos. Sempre estiveram ali. Antes, de passagem, já tinha reparado em algum detalhe, mas agora que os explorei completamente, conheço-os muito melhor.


As hortas crescem nestes terrenos inclinados, são cultivadas por homens e mulheres originários de Cabo Verde, que vivem no Alto da Loba. Há muito tempo que sabia disso. Não esqueço os lenços das mulheres da ilha de Santigo, há muito que os vejo nessas hortas. Agora, no entanto, conheço algumas dessas pessoas pelo nome.


É esse o caso do Beto, que me convida sempre para um churrasco que está a decorrer naquele exato momento. É também esse o caso de Nha Maria, que é cabo-verdiana, mas nasceu em Angola; que chegou adolescente a Cabo Verde, mas veio logo para Portugal, aqui para Paço de Arcos, em 1975. Ainda assim, para comunicarmos, é mais fácil usar o crioulo, às vezes um crioulo mais fundo do que aquele que consigo recordar do ano e meio que passei na Cidade da Praia, em 98/99.



Lá em baixo, não se ouve as estradas cá de cima, não se sente os prédios. Sob o rumor de cigarras, Nha Maria conta-me do marido, que teve dois AVC antes de morrer, e dos seis filhos, espalhados pelo mundo.


Nas hortas de Paço de Arcos, muitos conhecem a Mira pelo nome, e também a mim. Enquanto conversamos, deixamos longas pausas, apreciamos esse tempo. A Mira anda por ali a cheirar. Tudo bem, desde que não estrague os pés de milho de várias qualidades, milhos próprios para a cachupa, desde que não pise as batatas ou as favas, que hão de abastecer barrigas e que são menos cobiçadas por ladrões de hortas.


Neste vale de Paço de Arcos, consigo recordar as paisagens desmedidas da ilha de Santiago e sinto o coração, gosto de pensar que também eu sou um bocadinho badio.


Não tenho visto o Beto ou Nha Maria nestes últimos dias, mas sei que devem estar satisfeitos com o muito que tem chovido.




Texto e fotos de José Luís Peixoto