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ZAGREB, CROÁCIA

  • José Luís Peixoto
  • há 3 horas
  • 3 min de leitura





O museu está sempre aberto

 


Temos o direito de olhar uns para os outros. Por isso, nestes últimos dias, avanço por Zagreb a pé e, ao cruzar-me com pessoas, entendo-as como peças em movimento de um grande museu. Gerindo bom senso, mantendo a necessária consciência das regras sociais, observo pessoas com os mesmos olhos que dirigiria a qualquer peça de um grande museu mundial, escolhida por um curador segundo critérios de relevância histórica ou artística, relíquia ou expressão contemporânea, papiro ou instalação.


Todas as pessoas que encontro apresentam múltiplas camadas interpretativas, vale a pena distingui-las, tentar analisá-las. Há elementos, mais ou menos identificáveis, que as influenciam naquele momento específico e, também, características mais permanentes que as distinguem como peças únicas.


No centro de Zagreb, nas ruas que escorrem a partir da praça principal, a Trg, pronunciada assim mesmo, sem vogais, encontro pessoas de várias idades: gente que aproveita ruas pedonais, com a largueza e a tranquilidade de um rio, sem pressa, e gente que trabalha ali, que constrói aquela realidade todos os dias para poder receber os que ali chegam. Então, para além das pessoas, também posso apreciar outras exposições deste enorme museu: a enorme profusão de objetos das lojas de souvenirs, as padarias e as suas vitrinas com burek, as esplanadas e as bancas de flores. Um vendedor de balões toma conta de uma peça extremamente popular. As crianças aproximam-se encantadas com as cores e as formas dessa coluna extravagante. Os adultos são mais comedidos, disfarçam mais, mas também o olhar deles se altera perante essa imagem.


A coerência da amostra também propõe ideias acerca do ponto da cidade onde me encontro: tanto no centro da cidade, como nas estradas junto à universidade, ou nos jardins, ou na área da estação de comboios, ou perante blocos de prédios dos anos sessenta, antiga Jugoslávia. São as pessoas que mais influenciam a área da cidade onde se movimentam, ou será o contrário? Como em qualquer exposição bem montada, as grandes questões impõem-se e não têm uma resposta única e definitiva.


Não sei se Zagreb é uma cidade especialmente adequada para este tipo de visita, essa seria uma avaliação difícil. Por um lado, o mundo é demasiado vasto, não existe quem o conheça todo e, por outro lado, seria necessário definir uma hierarquia de parâmetros para fazer essa afirmação. Zagreb é a cidade de que disponho neste momento, isso basta-me.


Os olhos são o bilhete, o mapa e o horário do museu. Há a hora em que abrem portas, ligam a luz, garantem as condições, e há a hora em que precisam de fechar, descanso do pessoal. Falar dos olhos é, neste caso, o mesmo que falar da decisão, da capacidade de distinguir alternativas e escolher uma delas. Regra elementar e absoluta: em todas as circunstâncias, nunca há apenas uma opção.


Os elétricos, que aqui se chamam tramvaj, são um artifício que permite especial observação. Com um bilhete extra de pouco mais de cinquenta cêntimos, somos levados a certa velocidade por Zagreb, com possibilidade de olhar para essas imagens que se erguem à nossa passagem ou, em alternativa, de determo-nos no interior do próprio veículo, onde existe um pequeno mundo, que podemos observar com grande detalhe. Apesar do silêncio, os rostos fechados sobre si próprios, há muito para ver: os penteados, as maquilhagens, os acessórios, os próprios traços fisionómicos. Para além disso, há ainda muito mais para imaginar.


Na visita a este imenso museu, não são as pessoas, as peças em exposição, que fazem mais diferença, é o cuidado com que se olha. Não há detalhe suficientemente pequeno ao ponto de não poder ser mais examinado ainda. O cuidado é uma questão que trabalhamos em nós próprios, requer calibragem dos sentidos, medida em gramas e milímetros, sensibilidade, e requer rapidez de raciocínio, atenção, processamento de dados.


No entanto, antes do cuidado, há a intenção. Essa é uma conversa que mantemos connosco próprios, que fixa princípios em relação a quem achamos que somos e, depois, por derivação, em relação a quem achamos que os outros são. Se olhamos para os outros, porque o fazemos? A resposta a esta pergunta inclui-nos porque, afinal, estávamos presentes desde o início. Nas ruas de Zagreb ou em qualquer lugar, os outros são hipóteses de nós próprios, são um reflexo nosso distorcido pela distância, contêm-nos na medida em que os contemos a eles. Espelhos, espelhos. Em qualquer dos casos, temos olhos, temos o direito de encher o peito de ar, sentir o oxigénio.




Texto e fotografias de José Luís Peixoto

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© José Luís Peixoto

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