• José Luís Peixoto

EXPO DUBAI, EMIRATOS ÁRABES UNIDOS

Atualizado: 3 de abr.


O mundo, metáfora ou hipérbole





Os robôs passam pelas ruas, avançam a velocidade constante. Quando detetam obstáculos, hesitam, avaliam, redefinem a rota e continuam. Os robôs transportam comida, fazem o caminho mais reto entre os restaurantes internacionais e alguém que registou um pedido na aplicação do telemóvel. Também há os robôs que repetem aos transeuntes para usarem máscaras. Esse pedido escuta-se em inglês e em árabe através das suas pequenas colunas e pode ler-se nos ecrãs que lhes servem de rosto. E, claro, também há os robôs que interagem com as crianças, emitem sons divertidos, como se falassem para elas.


Nas ruas da Expo Dubai, os profissionais têm as credenciais penduradas ao pescoço e já não se surpreendem com estes robôs, estão habituados. São as famílias, muito mais admiradas, que olham para todos os lados, que se impressionam com tudo o que foi pensado justamente para impressioná-las. Gente de muitas origens povoa essas ruas. Estamos no Médio Oriente, nota-se pela temperatura e por múltiplos detalhes, mas há fragmentos de outras realidades a cada passo, súbitos agrupamentos musicais que nos transportam para lugares imprevistos, palavras que lemos quando passamos o olhar pelo cenário, imagens que surgem como clarões.


Um homem caminha com um telemóvel à frente do rosto, conversa com uma mulher que está muito longe, noutro país. O homem tenta transmitir-lhe o que está a ver, aponta a objetiva para um lado e para outro. O homem está emocionado com o que o rodeia e tenta comunicar essa emoção à mulher que, vê-se no pequeno ecrã do telemóvel, está sentada no sofá da sala, despenteada, com roupa de andar por casa.


As exposições mundiais tentam impressionar, esse é o tom da linguagem que utilizam. Quem as concebe e realiza deslumbrou-se com a possibilidade de uma síntese do mundo. O resultado é esta realização excêntrica, ruas de edifícios inusitados, a tentarem tocar-nos com uma sobrecarga de informação. Por dentro, essas construções são uma espécie de circos tecnológicos, empenhados em estimular-nos com audiovisuais e em comover-nos com melodias épicas.





Para exprimir o mundo, as exposições universais precisam sempre de temas enormes, do tamanho da natureza inteira. A Expo Dubai decidiu evidenciar três princípios: sustentabilidade, mobilidade, oportunidade. Neles, cabe tudo o que quisermos encontrar. E, apesar da natureza, lá está sempre a tecnologia, como símbolo do desenvolvimento da humanidade, como promessa de futuro, otimismo simplista.


É assim há muito tempo. Mundial, internacional ou universal, estes são os adjetivos com que, desde o século XIX, se têm caracterizado estas exposições. A primeira teve lugar em Londres, Hyde Park, em 1851. A partir daí, estes acontecimentos foram sempre palco de inovações: primeira transmissão televisiva (Nova Iorque, 1939), demonstração de um telefonema por Alexander Bell (Filadélfia, 1876), primeiros gelados servidos num cone (Saint Louis, 1906). Também nestas exposições internacionais nasceram algumas construções icónicas: a torre Eiffel (Paris, 1889), o Atomium (Bruxelas, 1958), a pala do pavilhão de Portugal da autoria de Siza Vieira (Lisboa, 1998) e, na atual Expo Dubai, a praça Al Wasl, a maior cúpula do mundo sem qualquer espécie de suporte.


Para lá do passado e do futuro, há o presente. Ao longo de mais de 400 hectares, até 31 de março de 2022, existe este lugar que representa o mundo e que, ao mesmo tempo, cria um mundo com lógicas próprias. Nessa realidade circunscrita, avaliando pelo tamanho dos pavilhões, o Luxemburgo, o Kuwait ou a Eslovénia têm tanta ou mais visibilidade do que os Estados Unidos ou a China. Os 192 países representados têm presenças díspares, determinadas pelo investimento que cada um decidiu fazer nesta Expo Dubai que, por sua vez, se deve, claramente, à relação que cada país tem com os Emirados Árabes Unidos. Não será por acaso que os países com as maiores comunidades no Dubai têm também alguns dos pavilhões mais fortes, como acontece com a Índia, o Paquistão, as Filipinas; ou, também, é notória a forma como os países vizinhos são enormes neste “mundo” criado pela Expo Dubai.



Assim, há os pavilhões que toda a gente quer visitar, que têm grandes filas a entrada, a sua fama passa de boca em boca, e há os pavilhões que ninguém menciona, a não ser na remota eventualidade de se encontrar um nacional desse país. Na Expo Dubai, um bom exemplo dos primeiros é a Arábia Saudita, com a sua arquitetura de ilusões de ótica, enormes produções cinematográficas e, claro, música épica. Esses são os pavilhões que vale a pena visitar no período até meio da tarde, quando há menos visitantes devido ao calor. Já no que toca a exemplos do segundo caso, as opções são inúmeras. Sem perder muito tempo a puxar pela cabeça, lembro-me do Tonga, da Serra Leoa, das Honduras, entre muitos outros. Esses são os pavilhões para entrar a qualquer hora, aleatoriamente, nenhuma fila, muitos folhetos.


Mas, no balanço geral desta experiência, esses são detalhes. Tentaram impressionar-nos com esta Expo Dubai e, realmente, é impressionante atravessar meio mundo, aterrar no Dubai, apanhar o metro e chegar lá. Sabemos que as músicas épicas foram compostas com o propósito de comover-nos e, mesmo assim, comovem-nos. Sabemos que, fora destes muros, o mundo é cheio de complexidade e que há muito exagero em todo neste otimismo e, mesmo assim, quando estamos naquelas ruas e nos cruzamos com um daqueles robôs, queremos muito acreditar.







Texto e fotografias de José Luís Peixoto