• José Luís Peixoto

XIAN, CHINA


Dois em mil







Com doze milhões de habitantes, Xian é capital da província de Shaanxi. Já era uma grande cidade no século XI A.C. e foi capital da própria China durante várias dinastias. Atualmente, a maioria dos turistas ocidentais que dormem nos seus hotéis chegam cansados de Xangai ou de Pequim. Na manhã seguinte, têm de acordar cedo. Não querem perder o minibus que os levará por dezenas de quilómetros até ao famoso exército de terracota.



Em 2011, quando visitei Xian pela primeira vez, pedi na receção o inevitável cartão de visita com o nome do hotel em caracteres chineses e saí sozinho. Xian estava com óptima temperatura. Entrei num jardim mal iluminado, onde centenas de pessoas de todas as idades faziam ginástica, cantavam à vez longas canções chinesas num pequeno palco ou, como eu, apenas caminhavam. Esse jardim tinha quilómetros, atravessei-o sem pressa. Chegado à saída, uma questão: esquerda ou direita?


Esquerda, segui a direção do centro da cidade. Após uma rua, uma curva, outra curva, apercebi-me de uma porta rodeada por jovens, de onde saía música. Em meia dúzia de passos

estava lá dentro, a subir uma escada alcatifada, em direção à música. Não passei por nenhum segurança, apenas tive de desviar-me do incrível número de rapazes e raparigas que entravam e saíam. E de repente: milhares de pessoas numa discoteca com um tamanho que não se podia prever na rua, como um pavilhão. O DJ estava lá ao fundo, a centenas de metros de distância.


A discoteca era atravessava por uma rede de balcões. Toda a gente estava sentada ao longo desses balcões. De pé, apenas os empregados e alguns soldados, sentinelas fardados, imperturbáveis perante as luzes, olhos imóveis, estátuas com capacetes de ferro e armas na mão. Só eu olhava reparava neles, as outras pessoas estavam entretidas com assuntos próprios. Quando alguém queria dançar, levantava-se e subia para cima de cubos que estavam espalhados por toda a parte.


Um empregado aproximou-se de mim. Perguntei-lhe se falava inglês. Chamou três ou quatro rapazes que continuaram a tentar falar comigo em chinês. Por fim, chegou um quinto ou sexto que me segurou pelo braço, levou-me até um banco vazio e disse-me: sit here.


Sentei-me. Trouxe-me uma lista de bebidas. Pude ver então que todas as pessoas tinham grandes quantidades de garrafas fechadas à frente, garrafas de cerveja, de Coca-Cola, garrafas de vodka, de whisky, baldes de gelo. Parecia ser obrigatório pedir de uma vez tudo o que se pretendia consumir durante a noite inteira. Além das bebidas, havia também grandes travessas de fruta descascada, especialmente melancia. Havia raparigas que olhavam para o infinito e comiam talhadas de melancia.


Pedi uma cerveja Corona, a única palavra que percebi na lista. Não havia ocidentais. A maioria das pessoas ignorava-me. Eu ia dando beijinhos na cerveja e espantando-me com pormenores. Uma rapariga ficou parada ao meu lado. Olhei para ela. Não olhou para mim e foi-se embora. Passados minutos, voltou. Ao sair, passou-me a mão pela perna. Depois, veio outra rapariga. Também olhei para essa, também não olhou para mim e também se foi embora. Também voltou. À segunda, trouxe uma garrafa de água. Começou a tentar abri-la, como se fosse muito difícil, como se não tivesse força suficiente.


Não resisti a esse teatro. Ajudei-a a abrir a garrafa. Em meio minuto, éramos amigos. Perguntei-lhe se falava inglês, respondeu yes, mas percebi logo que exagerava. Comunicando por sorrisos, subimos aos cubos e dançámos música pop chinesa. Ela sabia a letra. De repente, chegou um homem que começou a falar em tom muito ríspido para ela. Discutiam aos gritos. E foram embora. Voltei para o meu lugar. Passados minutos, quando ela regressou, trouxe-me uma cerveja. Dei um par de goles e, de repente, apercebi-me de que era tarde e estava em Xian, na capital da província de Shaanxi, a beber uma cerveja que me tinha chegado aberta às mãos, na companhia de uma desconhecida algo duvidosa. Disse-lhe: toilet. Não entendeu. Fiz o gesto de toilet. E saí. Contornei multidões e, já na rua, mostrei o cartão do hotel a um taxista. Ao chegar, dormi profundamente.


Sei que ninguém vai acreditar, sei que toda a gente vai achar que quero arredondar a história mas, no dia seguinte, à tarde, era eu um dos turistas ocidentais no minibus, no centro da cidade, quando voltei a vê-la numa das mil ruas de Xian. Era ela. Atravessava a rua numa passadeira, era ela. Tenho a certeza de que era ela. Se não quiserem acreditar, tudo bem. Aquilo que aconteceu não vai mudar por causa disso. E foi exatamente assim que aconteceu.





Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto

© José Luís Peixoto

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