• José Luís Peixoto

POLÓNIA


Coração da Europa






A história da Polónia é longa e acidentada como as colinas que se avistam de Bukowina Tatrzanska. Foi essa história, no entanto, que trouxe o país até aqui, até este momento. Hoje, andar pelas estradas da Polónia, entrar nas suas cidades, é deparar-se com imagens impressionantes, é escutar relatos duros e heroicos, que nos fazem reavaliar o que julgamos saber acerca da natureza humana. E, mesmo assim, depois de tudo isso, é encontrar um povo disponível e atencioso, que sabe sorrir.


O rio Vístula atravessa a Polónia de sul para norte. A viagem destas páginas começa em Varsóvia e segue contracorrente, até à estátua de um dragão que cospe fogo em Cracóvia, passando por piscinas aquecidas nas montanhas. Como o coração de Chopin, conservado na Igreja de Santa Cruz, em Varsóvia, este é o coração da Europa.




Varsóvia é uma capital que teve de reinventar-se muitas vezes. Devido à sua posição estratégica, a Polónia foi um dos países mais invadidos na história da Europa. O seu presente é moldado por dois momentos do século XX: a II Guerra Mundial e a Cortina de Ferro.


Nos anos 40, durante a ocupação nazi, 90% de Varsóvia foi destruída. A cidade antiga, por exemplo, com as suas ruelas e edifícios projetados no século XIV, precisou de ser totalmente reconstruída no pós-guerra. As pinturas detalhadas que o italiano Bernardo Bellotto tinha feito no século XVIII serviram de referência para esse enorme trabalho. Um exemplo dessa imensa renovação urbana é o Castelo Real que, tendo servido de centro de poder para diversos monarcas, foi atacado de forma repetida e quase destruído em 1944. Com grande risco pessoal, muitas peças foram escondidas e protegidas durante a guerra e, logo que possível, regressaram ao seu lugar.



A múltiplos níveis, também a presença da União Soviética constituiu uma marca traumática. Ironicamente, hoje, é a partir do topo do Palácio da Cultura e Ciência, uma “oferta” de Estaline à cidade, que melhor se vê o rápido desenvolvimento que Varsóvia tem alcançado desde 1989. Seja nas grandes avenidas de arranha-céus, nas animadas margens do rio Vístula ou na calma do Parque Lazienki, Varsóvia é uma cidade surpreendente, viva, é a prova de que a destruição não venceu.





No Palácio Kozlowka, respira-se a vida aristocrática da família Zamoyski. A cerca de 160 km de Varsóvia, os jardins são a antecâmara para um mundo. Paredes cobertas de arte, com mobiliário que estabelece um ambiente barroco, neoclássico, datado da primeira metade do século XVIII, num período em que a Polónia e a Lituânia formavam uma comunidade a que se chamou “República das Duas Nações”. Os objetos de uso pessoal que abundam pelas salas, assim como o excelente cuidado que recebem, dão a distinta sensação de um espaço habitado, como se o passado ainda estivesse ali.



Demoramos meia hora a chegar ao centro da cidade de Lublin, ruas cheias de gente. Na praça principal, há um portal inspirado em filmes de ficção científica que, em todas as horas, mantém uma videoconferência com uma praça de Vilnius. Pequenas multidões de desconhecidos ficam à frente desses ecrãs, comunicam por gestos entre as duas cidades. A tecnologia a reforçar vínculos da história: passado, presente e futuro. E Lublin é, de facto, uma cidade de todos estes tempos, desde a cidade antiga, com o seu imponente castelo medieval, até ao Centro para o Encontro de Culturas, um extraordinário espaço dedicado à arte contemporânea.


Bukowina Tatrzanska fica nas montanhas do sul da Polónia. Tem um complexo de piscinas reconhecido em todo o país. Fiquei hospedado no Harnas, um hotel só para adultos, o primeiro com essas características em que fiquei na vida. Essa informação é repetida sempre que se fala sobre o hotel e, até chegar lá, estava bastante curioso. Então, percebi que é uma questão de tranquilidade. Com vista deslumbrante sobre as montanhas, há ali uma paz que as crianças, quando crescerem, também poderão desfrutar.





Com cerca de dois mil habitantes habituais, Kazimierz Dolny recebe uma média de um milhão de visitantes anuais. Existem as origens medievais deste povoado, com vários edifícios memoráveis, como é o caso do castelo fortificado, ou também os espaços da comunidade judaica, que dinamizavam o comércio, sempre presente na praça principal, com o seu característico poço ao centro. Hoje, uma marca de Kazimierz Dolny são as mais de duzentas galerias de arte. Em quase todas as ruas, apresentam pintura, escultura, trabalhos de vitral e outras técnicas.



Seguindo para sul, Cracóvia é uma das cidades mais monumentais da Europa, paragem inevitável. Chega-se a Rynek Glowny, a praça principal, pela rua Florianska, depois da Barbakan, uma porta ainda conservada das fortificações medievais. E não faltam imagens admiráveis: a Basílica de Santa Maria, onde um trompetista toca no alto da torre a cada hora certa; o Mercado dos Tecidos, onde se pode encontrar um pouco de todos os produtos tradicionais da Polónia; ou o cenário, sempre em movimento, dos milhares de pessoas que dão vida constante aos 40 mil metros quadrados desta praça. Vale a pena encontrar lugar numa das dezenas de esplanadas e assistir a esse espetáculo quotidiano.

Mas, um pouco à frente, há também o Collegium Maius, edifício da universidade mais antiga da Polónia, onde estudou Copérnico. Há o Castelo Real de Wawel, incluindo a catedral, museus. A pouca distância, há o bairro judeu, com o seu passado e presente. E, também perto, está a perspetiva de um passeio ao longo do Vístula, esse rio tranquilo que, afinal, sempre nos acompanhou.







Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto