• José Luís Peixoto

WILLEMSTAD, CURAÇAU

Atualizado: 2 de abr.

Papiamentu


Uma das coisas que mais me impressionou no Curaçau foi a língua local, o papiamentu. Já me tinha chegado ao conhecimento de que havia vínculos com os crioulos de Cabo Verde e da Guiné Bissau, mas acreditava que seriam ligações remotas, apenas algumas palavras soltas. Foi só ao chegar aqui que percebi que são muito mais idênticos do que imaginava. Quem fala crioulo de Cabo Verde (principalmente na sua variação do sotavento) ou da Guiné Bissau consegue falar com as pessoas do Curaçau.


Um exemplo disso foi a curiosa conversa que tive há dois dias no centro de Willemstad. Aqui, a grande maioria dos supermercados pertencem a imigrantes chineses. Então, a dada altura, participei numa conversa com a dona do supermercado e um cliente. Ou seja, uma chinesa, um curaçauense e um português, eles a falarem em papiamentu, eu a falar em crioulo da Cidade da Praia, e a entendermo-nos completamente. (Para quem não saiba, fui professor em Cabo Verde no final dos anos noventa e lá aprendi a falar crioulo.)


Desde que cheguei, procurei alguma informação sobre estas relações linguísticas e históricas. Encontrei trabalhos académicos bastante completos que, no entanto, se não tivesse tido a experiência de estar aqui, me deixariam a pensar que existem enormes diferenças entre o papiamentu e os crioulos de Cabo Verde. Menciona-se a mistura do neerlandês, do inglês, de línguas indígenas americanas, do castelhano, entre outras. Sim, encontrei algumas dessas referências mas, de um ponto de vista puramente empírico e boquiaberto, a grande afirmação que quero fazer é: o papiamentu entende-se com muita facilidade.


Em papiamentu, “eu” diz-se “mi”, “tu” diz-se “bô”. Os verbos no presente declinam-se com “ta” + infinitivo. Exemplo: “eu como” é “mi ta comi”, “eu falo” é “mi ta pápia”, “eu preciso” é “mi ta mesti”.


Por via das ligações destes crioulos com a língua portuguesa, o papiamentu é também compreensível para qualquer falante de português que se disponha a esse esforço. Principalmente por escrito, uma vez que a ortografia do papiamentu se encontra regulada e está completamente implementada.


Esta ligação linguística é profundamente comovente. Por via das pessoas escravizadas que foram trazidas para trabalhar na cana-de-açúcar, esta forma de falar atravessou o imenso oceano e chegou aqui. Aqueles que estão lá, na costa ocidental africana, são parentes destes que estão aqui, nas Caraíbas. Foram obrigados a separar-se, mas mantém este vínculo fundamental, a língua que as suas mães lhes ensinaram.




Texto e fotos de José Luís Peixoto