• José Luís Peixoto

NOVA IORQUE, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Verão em Nova Iorque







Depois de invernos frios, chega a compensação de verões quentes. Muitas vezes, invernos gelados e verões escaldantes. Assim é o clima continental em Nova Iorque, uma das cidades mais icónicas do nosso tempo e da nossa civilização. Formalmente, não é sequer a capital do seu Estado mas, simbolicamente, é a capital de muito mais. É enorme a quantidade de sonho americano que se pode sonhar em Nova Iorque. Está enraizada a ideia de que, como cantou Frank Sinatra, quem tem sucesso lá, tem sucesso em qualquer lugar. Com as temperaturas em graus fahrenheit, Nova Iorque não perde os seus encantos no pico do verão. Pelo contrário, há uma cidade nova a descobrir quando sobe a temperatura.


Os parques ganham uma vida muito especial de junho ao fim de setembro. A sombra e o fresco da natureza são tréguas no calor que transforma o betão em chapas abrasadoras. Os lagos que existem nesses parques são, também, uma tentação nas horas de grande calor. Até o simples barulho da água a escorrer é um bálsamo.


No Battery Park, a água que se vê por toda a parte é o New York Harbor, a grande baía onde se juntam os rios Hudson e East. A paisagem dos barcos que se dirigem a Nova Jérsia, lá ao fundo, também os que rumam à emblemática Estátua da Liberdade, igualmente à nossa frente, são suficientes para amenizar qualquer verão. Ao fim da tarde, um grupo de pessoas bate palmas em uníssono, formam uma roda. Quando nos aproximamos para olhar por cima dos ombros, assistimos a um espetáculo de rua: dança e acrobacias.





Em todos os outros parques da cidade, existem essas surpresas permanentes. O maior de todos, o mais diverso é, claro, o Central Park. Com quase quatro quilómetros quadrados de superfície, foi o primeiro parque público dos Estados Unidos. Avançando pelos seus caminhos, encontra-se uma grande diversidade de paisagens, assim como de pessoas a realizarem as mais diversas atividades, desde os adeptos de sofisticados barcos telecomandados em alguns dos seus lagos, passando pelas centenas ou milhares de corredores que permanentemente contornam o reservatório de água, ou pelas crianças que, acompanhadas por pais ou educadores, se dedicam a passatempos infinitos. O programa do Central Park para o verão é extenso, apresenta uma grande programação e, normalmente, é absolutamente gratuito.


Entre os meus preferidos, com muitas diferenças entre si, estão ainda o Bryant Park, sobretudo uma superfície de relva a pouca distância da Times Square, com cadeiras para quem não se quiser sentar diretamente na relva, com esplanadas e uma pequena biblioteca, extensão da Biblioteca Pública de Nova Iorque, que fica mesmo ao lado. E o magnífico Washington Square Park, na baixa da Manhattan, que atrai para si toda a animação e extravagância dessa parte da cidade.


A esta distância, com este oceano pelo meio, muitas vezes, quando nos referimos a Nova Iorque, estamos na verdade a falar apenas de Manhattan, que é o mais pequeno dos cinco distritos que constituem a cidade. Os outros são: Queens, Brooklyn, Staten Island e Bronx. Essa simplificação deve-se ao facto de a grande maioria dos espaços que identificamos internacionalmente estarem situados nesta ilha. Não é por acaso que os habitantes locais se referem a Manhattan como the city.


Ao caminhamos em qualquer uma das suas ruas, mesmo que seja a primeira vez que visitamos Nova Iorque, sentimos uma estranha familiaridade. Podemos até estar perdidos, não saber o caminho, mas os nossos olhos reconhecem as imagens que nos rodeiam. Esse é o resultado das centenas de séries de televisão e filmes que já vimos, passados em cada um destes cenários. O papel que Nova Iorque tem na nossa cultura amplia o magnetismo da cidade.



Por isso, um dos grandes prazeres é, simplesmente, deambular pelas ruas. Descer a Quinta Avenida, entrando em inúmeras lojas bem conhecidas ou, mesmo, apenas apreciando as vitrinas, pode ser programa para um dia inteiro. Até lugares menos evidentes, como a Grand Central, a estação de comboios com mais história da cidade, proporcionam uma visita inesquecível.


Um dos maiores prazeres de Nova Iorque é andar de bicicleta, o céu lá em cima, entre o topo dos arranha-céus. Para quem estiver mais em forma, subir desde o distrito financeiro até ao Central Park, um passeio de vários quilómetros e de muitos quarteirões. Ou o sentido inverso, para quem quiser aproveitar a inclinação.


Nas horas mais quentes dos meses de verão, no entanto, talvez seja mais aconselhável aproveitar o ar condicionados dos museus ou dos grandes armazéns comerciais que, de certa forma, também são uma espécie de museus.


Não há dúvida de que uma forte marca de Nova Iorque são os nova-iorquinos. Apresentar essa identidade significa sempre um certo orgulho. O carisma da cidade está diretamente ligado aos seus habitantes, e vice-versa. Qualquer um pode transformar-se em nova-iorquino. Para tal, basta que faça por viver em Nova Iorque e, o que não é pouco, consiga sobreviver segundo os seus rígidos padrões. Inclusivamente os financeiros, a simples subsistência em Manhattan não é uma realidade acessível a todas as bolsas.


Ainda assim, não há dúvida de que uma das características da cidade é a sua abertura ao outro, a sua diversidade. Desde as históricas imigrações de europeus, irlandeses e italianos, entre outros, passando pela chegada de asiáticos, veja-se o tamanho da fervilhante Chinatown, até às grandes migrações do próprio continente americano, como é o caso dos mexicanos e demais latino-americanos, uma das atuais forças de trabalho deste país.




Sendo Nova Iorque um dos centros mundiais das artes e do entretenimento, também com raízes profundas na nossa cultura recente, não é de estranhar que, entre os nova-iorquinos que enchem os passeios, se encontrem visuais que se distinguem pela exuberância, ou talvez seja mais correto dizer: pela novidade. Um dos grandes acontecimentos anuais de Nova Iorque é a semana da moda. No entanto, nas ruas de Manhattan, todos os dias são dias de moda e criatividade.


Estas são apenas algumas imagens e ideias, apenas algumas sugestões dessa cidade imensa, desse estímulo permanente. Toda a gente conhece as t-shirts brancas com um enorme coração vermelho, I LOVE NY. E, efetivamente, é fácil amar Nova Iorque, apesar dos problemas que também existem. Quando se foi a Nova Iorque algumas vezes, quando se estabeleceu uma relação com a cidade, sentimo-la como um dos nossos lugares, temos saudades de estar no seu interior e, em todas as oportunidades possíveis, queremos ir lá, tanto no inverno mais frio, como no verão mais quente.





Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto e José Luís Peixoto