MONGÓLIA
- José Luís Peixoto
- há 15 horas
- 8 min de leitura
No centro do país infinito

1
O centro de Ulaanbaatar é a Praça Sükhbaatar. No fim daquela tarde de julho, a praça era também o centro de todos os encontros, parecia que a cidade inteira se cruzava ali. O sol, ainda alto, lançava a sua luz sobre a fachada monumental do Parlamento, com a solene estátua de Genghis Khan, e sobre enormes edifícios administrativos e culturais, dos outros lados, que rodeiam a praça. Àquela hora, o peso dessas presenças de pedra dissolvia-se na vida quotidiana. Crianças corriam atrás de balões, pedalavam em bicicletas, conduziam pequenas motos elétricas; casais passeavam devagar, posando para fotografias diante da estátua e das bandeiras abertas ao vento; jovens reuniam-se em grupos; vendedores ambulantes ofereciam gelados. O ar carregava uma mistura de vozes, gargalhadas e música distante. O céu tingia-se de tons alaranjados, que já prenunciavam a noite. No fim daquela tarde, a praça, lugar de poder e história, era também um lugar de convívio, celebração e vida coletiva.
Noutros meses, aquele espaço é bastante diferente. O clima da Mongólia caracteriza-se por extremos ao longo do ano, reflexo da sua localização continental, a grande distância do mar. Os invernos são longos, rigorosos e secos, com temperaturas que podem chegar aos quarenta graus negativos.
A Mongólia apresenta características muito particulares também ao nível demográfico: pouca população numa imensa vastidão territorial. Pouco mais de 3,4 milhões de habitantes estão distribuídos por uma área que ultrapassa 1,5 milhão de quilómetros quadrados, o país com mais baixa densidade populacional do mundo. Esta realidade deriva da exigente geografia da estepe e do deserto, que, por sua vez, acabou por moldar os modos de vida nómadas. Ainda hoje, uma parte significativa da população mantém tradições pastorícias, deslocando-se sazonalmente com rebanhos de cavalos, camelos, vacas, ovelhas e cabras.
A capital, Ulaanbaatar, concentra quase metade da população nacional, tornando-se um centro urbano com crescimento rápido e desigual. Na periferia da cidade, crescem bairros de gers (tendas tradicionais) que acolhem migrantes internos em busca de melhores oportunidades. Estas migrações refletem outro traço demográfico: a urbanização acelerada da capital, em extremo contraste com vastas regiões rurais praticamente despovoadas.
Assim, a demografia da Mongólia resulta de um equilíbrio singular: um país imenso, pouco povoado, onde tradição nómada e urbanização coexistem, e onde a identidade nacional se apoia tanto na dispersão pela estepe quanto na concentração em torno da capital.

2
Em Ulaanbaatar, o Museu Nacional da Mongólia é um bom ponto de partida para compreender o país. As suas coleções incluem desde artefactos pré-históricos até peças contemporâneas, assim como vestígios da cultura xiongnu, tesouros da época de Genghis Khan e objetos ligados ao budismo mongol. Um dos destaques é a secção dedicada à vida nómada, com trajes tradicionais, instrumentos musicais e utensílios do quotidiano, que ajudam a perceber a ligação profunda deste povo à estepe. Visitar o museu no início da viagem oferece uma visão estruturada da história e identidade da Mongólia, enriquecendo a experiência do que virá a seguir.
Saindo da cidade, a estrada entre Ulaanbaatar e o Parque Nacional Terelj já revela a transição para as paisagens desmedidas da estepe. Ao deixarmos a capital, surgem planícies com ligeiras ondulações no terreno, pastagens abertas e rebanhos. Pequenos povoados de gers tradicionais concentram-se em certos pontos da paisagem, misturados com casas modernas. Montanhas demarcam o horizonte, prenunciando as formações únicas de Terelj.
Por fim, chegamos à gigantesca estátua equestre de Genghis Khan, a cerca de 55 km de Ulaanbaatar, junto ao parque nacional. Este é um dos símbolos mais impressionantes da Mongólia contemporânea. Com 40 metros de altura, em aço inoxidável brilhante, eis o conquistador no seu cavalo. Na base, há lojas de lembranças: objetos de feltro, miniaturas de gers, trajes tradicionais ou bolsinhas de shagai, o jogo em que se lança ossos do tornozelo de ovelhas. Subindo pelo elevador para o miradouro, quase à altura de Genghis Khan, lançamos o olhar sobre a paisagem. O horizonte parece infinito em todas as direções, marcado por planícies, suaves colinas e rios ao longe, também pequenos grupos de gers brancos.
De volta a Ulaanbaatar, o Museu Gandan, pertencente ao mosteiro Gandantegchinlen, guarda relíquias budistas de grande valor artístico e espiritual. Com destaque para a imponente estátua de Megjid Janraisig, com 26 metros de altura, ladeada por centenas de pequenas imagens votivas. O espaço exibe ainda escrituras sagradas, máscaras rituais e objetos usados em cerimónias. Por seu lado, o Museu Bogd Khan, ocupa o antigo palácio de inverno do último rei da Mongólia, que também foi líder espiritual do país. Esse complexo reúne pavilhões ricamente decorados e esculturas budistas. Neste caso, destaca-se o trono do Bogd Khan, assim como a sua carruagem cerimonial. Esta visita combina história política e tradição espiritual, dando pistas sobre a transição entre a Mongólia do passado e a atual.
3
Um voo entre Ulaanbaatar e Dalanzadgad às 3h da manhã tem algo de surreal. O avião levanta voo, deixa a cidade adormecida e cruza o céu escuro da estepe. Na janela, as luzes sumidas da cidade dão lugar a uma imensa escuridão silenciosa. O voo dura pouco menos de uma hora, mas transmite a sensação de atravessar todo o vazio. Ao aproximar-se do aeroporto de Dalanzadgad, já no coração do Gobi, surge a pista iluminada isolada no meio do deserto anoitecido. Descer as escadas do avião no ar fresco e seco da madrugada, marca o início de uma experiência única. No pequeno aeroporto de Dalanzadgad, a recolha das malas é simples. Numa sala modesta, bagagens são descarregadas à mão. Chegar ao Gobi ainda antes do nascer do sol permite que se assista à maneira como a primeira luz do dia faz nascer dunas, planícies e, no limite da paisagem, montanhas distantes.
O deserto de Gobi fala de distância e de silêncio, mas fala também de diversidade. Composto por vastas planícies áridas, montanhas rochosas e vales profundos, o horizonte parece desafiar os limites da nossa visão. Durante o dia, o sol é intenso e o ar seco. A terra é tão infinita como o céu. O vento levanta poeira fina que percorre quilómetros, reforçando a impressão de movimento num espaço aparentemente imóvel. À noite, a temperatura cai abruptamente e o silêncio torna-se ainda mais absoluto. O céu noturno, sem poluição luminosa, mostra a Via Láctea em raro detalhe. Apesar da aridez, o Gobi é a casa de enormes rebanhos, milhares de animais que pastam livres, sem vigilância constante, controlados apenas pela proximidade da água e pelo pastor que, de tempos a tempos, surge de jipe, de mota ou a cavalo para juntá-los e conduzi-los.
Famosas e excecionais, as dunas de Khongor formam uma muralha de areia que se alonga pelo horizonte. Com o vento, as encostas movem-se, alterando o desenho da paisagem de um momento para outro. Quando a brisa ganha força, um som profundo percorre a areia, como se o próprio deserto respirasse. Subir até ao cume exige esforço, os pés afundam-se, mas, no topo, o olhar alcança uma imensidão que une céu e terra. A partir desse miradouro natural, é também comum distinguir-se grupos de gers, assentamentos de famílias nómadas.

No deserto de Gobi, de tempos a tempos, cruzamo-nos com grupos de gers isolados, as tradicionais tendas mongóis, circulares, fáceis de montar e desmontar. A vida das famílias organiza-se em torno dos rebanhos de camelos, vacas, cabras e ovelhas, que garantem leite, carne, lã e transporte. A rotina diária começa cedo: recolher animais, ordenhar, preparar produtos lácteos como o airag e o queijo seco. A água é escassa, encontra-se em poços ou é trazida em recipientes de longas distâncias. O clima extremo impõe resiliência: verões quentes e invernos rigorosos, onde o dzud, o período mais extremo de frio, pode ameaçar os rebanhos. Ainda assim, apesar das dificuldades, a hospitalidade é central; visitantes são recebidos com chá de leite salgado e partilha de alimentos. As crianças ajudam nas tarefas e aprendem cedo a montar a cavalo, mas muitas dividem a vida entre a escola e a casa móvel da família. A televisão via satélite e os telemóveis já chegam a muitos gers, o mundo moderno toca os modos de vida ancestral.
As famílias nómadas do Gobi mudam de local várias vezes por ano, seguindo a disponibilidade de pasto e água. Esse movimento, feito com animais, gers e tudo o que possuem, marca o ritmo da vida: um ciclo contínuo de partida e chegada, onde a casa não existe apenas num lugar.
No verão, em noites de julho, deitei-me no ger iluminado apenas pela claridade da lua que entrava pelo teto. Os tapetes no chão guardavam o conforto. A estrutura era tocada pelo vento e pela imensidão da estepe. Dentro do ger, o ar misturava o odor da lã de ovelha das coberturas com o da madeira resinosa que dá forma ao ger.
A dieta dos pastores mongóis no Gobi é simples, mas profundamente ligada ao gado que sustenta a vida nómada. O leite é a base: dele advém o chá salgado com leite, sempre presente; o airag, leite de égua fermentado de sabor ácido e ligeiramente alcoólico; e ainda queijos secos ao sol, nutritivos e fáceis de conservar. A carne, sobretudo de cabra, ovelha e camelo, é cozida ou usada em sopas fortes, que dão energia para enfrentar o clima difícil. O buuz, espécie de bolinho cozido a vapor, é comum em ocasiões festivas. No verão, os laticínios dominam; no inverno, as refeições tornam-se mais pesadas, com caldos e carnes secas, garantindo sustento numa meteorologia de grandes contrastes.
Sentado na relva, a poucos metros do ger, vejo a panela de alumínio ser aberta, libertando um vapor denso e aromático. Pedaços de borrego assado misturam-se com batatas, cenouras e cebolas, cozinhados lentamente sobre pedras aquecidas no fogo. O sabor é intenso, a carne desfaz-se na boca e os vegetais absorvem os sucos, tornando-se doces e intensos ao mesmo tempo. Comemos com as mãos, partilhando cada pedaço com a família que nos recebeu. Sinto que este gesto é um elo profundo com a vida da estepe, onde o alimento é comunhão.
4
Viajar de jipe pelo deserto mongol é entrar num espaço sem estradas marcadas, onde o horizonte dita o caminho. São centenas de quilómetros sobre trilhos de terra, pedras soltas e areia, com o veículo a saltar e a ranger. O vento levanta poeira, pequenos pontos de brilho que cobrem a pele. Lá fora, sucedem-se planícies infinitas, montanhas ao longe e rebanhos dispersos. As paragens são breves: um poço, um ger isolado, um grupo de camelos. O tempo parece dilatar-se. Há cansaço, mas também fascínio: a sensação de atravessar um lugar fora do mundo, onde cada quilómetro revela a escala grandiosa e solitária da Mongólia.
À volta do jipe estendem-se planícies sem fim, tingidas de amarelo e castanho, quebradas por colinas rochosas que surgem como ilhas no horizonte. Rebanhos de camelos e cavalos cruzam a paisagem lenta, enquanto o céu imenso domina tudo, o azul intenso, as nuvens passageiras que projetam sombras móveis no deserto.
Ao fim do dia, nos conhecidos penhascos de Bayanzag, o pôr do sol transforma a paisagem num espetáculo silencioso. As falésias, já avermelhadas, ganham tons de fogo que se intensificam à medida que a luz desce. As sombras alongam-se pelos vales, desenhando contrastes profundos. O calor do dia cede lugar a uma brisa fresca, e o céu passa do laranja ao púrpura, até se dissolver no azul escuro da noite. O silêncio, tocado apenas pelo vento, reforça a sensação de se assistir a um instante suspenso, a terra parece arder.
Já em Kharkhorin, pequena cidade de cerca de quinze mil habitantes, mas com uma história de muitos séculos, o Mosteiro Erdene Zuu é o mais antigo e um dos mais importantes da Mongólia. Fundado em 1586 sobre as ruínas de Karakorum, antiga capital do império de Genghis Khan, que foi durante séculos um centro espiritual e cultural do budismo tibetano na estepe. Rodeado por uma muralha branca com 108 estupas, o complexo abriga templos de madeira profusamente decorados, esculturas e thangkas que demonstram a fusão entre arte mongol e influências tibetanas e chinesas. Apesar de ter sofrido alguma destruição durante o período soviético, parte do mosteiro foi preservada e hoje funciona como museu e lugar de culto. Caminhar entre os templos e as estupas não deixa dúvidas acerca do cruzamento entre história, espiritualidade e memória nacional. O som cantado ou murmurado das orações e o aroma do incenso mantêm viva a atmosfera de devoção.
A partir daí, resta fazer o caminho de regresso a Ulaanbaatar. Desta vez já por estrada mas, ainda assim, prestando muita atenção a rebanhos e manadas que, a qualquer momento, podem cruzar o alcatrão. Ao chegar à cidade, de certeza que um caminho que me conduzirá de novo à Praça Sükhbaatar, centro da cidade, do país ou, talvez, centro do mundo.

Texto e fotografias de José Luís Peixoto
publicado na revista Volta ao Mundo, edição de novembro de 2025







Comentários