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  • José Luís Peixoto

MILIBANGALALA, MOÇAMBIQUE

Moçambique, a voz do planeta





Reserva


Chegámos cedo à entrada da Reserva Especial de Maputo. Saímos da cidade no nascer da primeira luz e, mesmo assim, a essa hora, na Avenida 25 de setembro, já havia multidões nos passeios, em volta das calamidades, nome que é dado aos montes de roupa em segunda mão que chegam da Europa e da América do Norte e que, aqui, são vendidos por poucos meticais.


Depois de preenchermos o papel e de pagarmos um valor de entrada, conhecemos o senhor Congolo, que falava devagar, mas com ritmo, e que nos havia de explicar as coisas da savana. O jipe ondulava pelos caminhos. Certas vezes, entre mato e árvores, o senhor Congolo distinguia animais e, com toda a paciência, chamava-nos a atenção. Outras vezes, dávamos de caras com eles. Ficávamos espantados a olhar uns para os outros.


Foi o que aconteceu com meia dúzia de zebras, as listras muito bem desenhadas no pelo, uma família de mãe e filho a fechar esse grupo. Foi também o que aconteceu com duas impalas que, de repente, se lembraram de uma timidez que as impediu de continuar ali, e se afastaram com saltos de notável graciosidade.


Ainda não eram oito horas e a temperatura da manhã parecia aumentar a cada minuto. Ao aquecer, também o cheiro da terra mudava. Com o jipe, rodeámos o terreno onde estava uma chita à espera de ser libertada. Quando se ambientar, poderá correr por estes campos. As chitas futuras que aqui andarem serão filhas dela.



A história desta reserva é um sinal de otimismo. Desde que, em 1932, aqui se criou uma coutada de caça, até que, em 2021, se chegou aos moldes atuais, conjugando a Reserva Especial de Maputo e a Reserva Marinha Parcial da Ponta do Ouro, muito caminho foi feito pela conversação do território e das espécies.


Elefantes, girafas, fococeiros, vários tipos de antílopes ou, nas lagoas, crocodilos e hipopótamos. São muitos os animais que, com facilidade, encontramos no caminho. A suspensão do jipe a ranger nas constantes lombas e buracos, algumas cabeçadas no teto e, logo a seguir, de motor desligado, sem respirar, a apreciarmos a elegância de um animal.



Guerra


Quando contou a história da guerra dos hipopótamos, não sei se o senhor Congolo se apercebeu da parábola implícita. Disse que, entre os machos, há ferozes disputas. Esses gigantes passam o dia submersos, só com a cabeça de fora, mas quando outro hipopótamo se aproxima do território que julgam pertencer-lhe, iniciam violentos conflitos que, muitas vezes, terminam em ferimentos bastante graves. A ironia é o tamanho das lagoas, enormes, não falta espaço para todos os hipopótamos. As suas guerras são inúteis e ridículas.



Milibangalala


As sílabas desta palavra parecem sugerir uma música. Pronunciá-la requer uma certa melodia. Avançando pela reserva durante cerca de uma hora, chegamos a Milibangalala, que nomeia uma ponta da costa. É aí que está localizado o Hotel Montebelo, inaugurado há poucos meses, e que pretende ser uma das opções de hospedagem para quem visite a reserva. Ficámos duas noites.


Entre os bungalows de madeira, distribuídos na encosta e ligados por passadiços, tivemos a sorte de ocupar o mais alto e, a partir daí, desfrutar de uma varanda sobre o Índico que, acredito, manterei na memória ao longo de toda a minha vida.


Lá em baixo, as ondas a lançarem-se sobre a praia. A respiração sincronizada com esse ritmo. E quilómetros de areia à espera de serem marcados pelos nossos passos, caranguejos a saírem de buracos e a correrem de encontro à espuma branca da água, dunas virgens.

A natureza é perfeita. Sim, é um adjetivo forte, absoluto, mas não tenho dúvidas de que esse é o adjetivo certo. A natureza é absoluta.




Estrelas


Passámos o primeiro serão na varanda, a olhar para as estrelas como se assistíssemos a um espetáculo. Todos aqueles pontos de brilho também a olharem para nós. Assim, perante uma transcendência desse tamanho, foi fácil comovermo-nos, enredarmo-nos em teorias filosóficas, sentirmo-nos ínfimos perante tanto universo. É difícil descrever emoções tão elementares e, ao mesmo tempo, arrebatadoras.


Camões


Luís Vaz de Camões passou alguns anos em Moçambique. Faz parte da convicção dos estudiosos que foi neste país que escreveu uma boa parte de Os Lusíadas. O seu lirismo seria de grande préstimo para descrever o que encontramos na reserva e em Milibangalala. Hoje, séculos depois de ter estado aqui, há o Instituto Camões em Maputo, a sua atividade cultural, e há a Embaixada de Portugal em Moçambique. Foram estas instituições que me convidaram para regressar a este país e, assim, à margem das atividades junto de leitores e de alunos universitários, encontrar esta oportunidade de conhecer um pouco mais deste território infinito. Incrivelmente, apercebi-me assim de que pouco mudou nesta natureza desde que Camões e as caravelas portuguesas aqui estiveram.



Trovoada


Passámos o segundo serão na varanda, a olhar para os relâmpagos que, de repente, durante longos instantes, iluminavam toda a distância. Moçambique era o oceano, a terra e o céu. Solene, com essa voz, Moçambique falou-nos de vida.







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