• José Luís Peixoto

LAGO LUGU, CHINA


As mulheres do lago






Durante seis horas, percorremos cerca de 300 quilómetros em estradas de curvas apertadas, no alto de montanhas, até chegarmos aos olhos de mulheres da etnia Mosuo. Começaram por observar-nos à distância, a estranharem cada detalhe da nossa aparência, cada gesto que fazíamos e, logo a seguir, queriam tocar-nos, perceber se éramos reais.


Nós tínhamos a mesma curiosidade em relação a elas. Ainda de madrugada, tínhamos saído de Xichang, uma pequena cidade no contexto da China, com meio milhão de habitantes. Por fim, quando chegámos ao lago Lugu, no planalto de Yunnan, na fronteira entre as províncias de Sichuan e Yanyuan, no oeste da China, junto ao início dos Himalaias, queríamos ver estas mulheres, saber tudo sobre elas. Ao mesmo tempo, elas olhavam-nos fixamente, não desviavam o rosto por um segundo sequer.


Nas aldeias junto ao lago, vivem populações da etnia Mosuo, a única cultura matriarcal da China. A linhagem das famílias é toda garantida através do lado feminino, os bens são passados de mãe para filha.


Nesta etnia, não existe o conceito convencional de casamento e só muito raramente se mantêm longas relações monógamas. As mulheres decidem com que homem querem estar e durante quanto tempo querem manter esse vínculo. Existe mútuo consentimento e, no entanto, é às mulheres que cabe a iniciativa de convidar os homens a visitá-las à noite.



Durante o crescimento, as raparigas e os rapazes Mosuo são ensinados a exprimir a sua sexualidade com a mesma liberdade. Ao contrário do que acontece em toda a China, só os envolvidos têm uma palavra a dizer acerca da sua união ou separação, os familiares não se pronunciam.

Nesta comunidade de cinquenta mil pessoas, o comportamento sexual das mulheres não é julgado de forma diferente.


Com os seus mais de 170 quilómetros quadrados, o lago Lugu é o principal meio de subsistência para as populações que vivem em seu redor. A etnia Mosuo tem o mesmo nome do rio que mais abastece o lago de água, depois de correr entre montanhas, algumas das quais são consideradas sagradas. Ainda assim, para lá dessas crenças, a religião mais difundida em toda esta região é o budismo tibetano.


Da mesma forma que a vida é organizada à volta do lago, as famílias são organizadas à volta das avós, as grandes matriarcas. Em presença dessas mulheres, o magnetismo do seu carisma era evidente, sentíamo-lo com muita nitidez. São elas que controlam esses núcleos familiares alargados, onde cuidar das crianças e dos mais velhos é responsabilidade de todos.


O ar é limpo e fresco no lago Lugu e nas pequenas aldeias polvilhadas nas encostas. A fertilidade desta natureza permite uma agricultura abundante, em que as mulheres semeiam, os homens lavram e, juntos, fazem as colheitas.


Os poucos turistas que se aventuram nestes caminhos são chineses. Os primeiros chegaram apenas na década de noventa, quando as estradas foram pavimentadas. Por isso, os locais começaram por olhar-nos com alguma incredulidade. Mas, aos poucos, fomos ganhando confiança, tirámos fotografias juntos e, provavelmente, neste momento, ainda haverá alguém nas margens do lago Lugu que não esqueceu esse invulgar estrangeiro com piercings e desenhos tatuados nos braços.

Voltámos a fazer as seis horas de viagem pelas estradas enviesadas de Sichuan, ao longo de rios a correrem com fúria ou à beira de ravinas abruptas. Dessa vez, o caminho pareceu-nos mais curto, porque levávamos o tempo imenso daquele lago e daquelas mulheres. Sentíamos que entendíamos melhor todas as pessoas que se paravam na berma da estrada, espantadas, a ver passar o nosso jipe.


Quando voltámos à cidade de Xichang, era domingo. As praças estavam cheias de gente. Numa delas, havia um grupo de mulheres a dançar, não sei a que etnia pertenciam, mas sei que dancei com elas. Foram elas que me vieram puxar para dançar.









Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto