• José Luís Peixoto

BADAJOZ, ESPANHA

Atualizado: Jul 13


Estrangeiro






Tinha 9 anos na primeira vez que atravessei esta fronteira. Na época, as formalidades aduaneiras eram um pouco mais exigentes. As diferenças entre um e outro lado eram muito maiores. Esse era o tempo dos caramelos, das Galerias Preciados, dos relógios eletrónicos, com cronómetro e/ou calculadora, que acertávamos com a ponta de uma esferográfica.


Hoje, dia 1 de julho de 2020, calhei a estar perto de Elvas e, depois destes meses raros (em português e em castelhano), depois desta incerteza que ainda não terminou, depois de tanto inimaginável, quis atravessar esta fronteira, ir a Badajoz, mesmo que apenas durante algumas horas, mesmo que apenas simbolicamente.



Fui a uma livraria, passeei por alguns lugares conhecidos, encontrei dois amigos, fizemos um almoço-lanche-jantar de tapas e voltei a atravessar a fronteira, vou neste momento a caminho de casa.


Apesar das muitas viagens que fui fazendo ao longo dos anos, consigo agora lembrar com precisão o que senti nesse dia, com 9 anos, quando também regressava a casa (outra casa), com a cabeça cheia de entusiasmantes ilusões.



E, como um tesouro, levo a súbita lembrança de que, para mim, viajar é este sonho inocente de liberdade. Não preciso de ir muito longe, basta não me perder de mim próprio.





Texto de José Luís Peixoto

Fotografias de Patrícia Santos Pinto

© José Luís Peixoto

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