• José Luís Peixoto

SEGÓVIA, ESPANHA

Segóvia e a sua memória


A partir deste lado, as nuvens são o fundo que atravessa os arcos do aqueduto. Há o contraste das cores: o azul do céu, as nuvens muito brancas, o granito muito cinzento. E há o contraste da densidade: o flutuar gasoso no céu, o peso opaco da pedra. Também o tempo: o céu de hoje, esta manhã de sábado, o aqueduto do século I, sempre referido como um dos mais importantes desse período romano na península. O aqueduto era a minha memória mais viva.


Estive aqui em 1997 ou 1998, não consigo ter a certeza absoluta acerca do ano. Em qualquer dos casos, o meu filho mais velho, que terminou o mestrado na semana passada, era bebé. Desde então, ao longo destes mais de vinte anos, sempre que ouvi falar de Segóvia, a primeira imagem que me surgiu na mente foi este aqueduto. Suponho que me tenha impressionado. Essa parece-me a explicação mais provável para ter guardado uma lembrança tão duradoura, mas não consigo saber se o que me marcou mais foi o impacto físico desta construção enorme ou os extraordinários dados de engenharia e longevidade. Indiferentes a essas dúvidas, nesta manhã concreta, luminosa, transeuntes atravessam a pequena multidão dispersa que olha em volta, com ou sem máquina fotográfica.


Também eu olho em volta. Mesmo ao lado do aqueduto, o meu olhar pousa na Mesón de Candido, restaurante que dá nas vistas e que anuncia o seu forno e o seu cochinillo, leitão assado à maneira de Segóvia. Não sei se é realmente uma memória vivida ou uma construção, mas distingo no meu íntimo uma cena a que não sei se assisti: o corte do leitão com um prato. Um homem a segurar um prato de lado e, com golpes intempestivos, a cortar pedaços de um leitão assado e, depois, a lançar esse prato ao chão, o som da loiça a explodir. Sei que foi neste restaurante que o mítico Candido inventou esse ritual que, para além de demonstrar que a carne está macia, se tornou um símbolo de Segóvia.


Seguindo marés de gente, inicio a subida da Calle de Cervantes. De um lado e de outro, há lojas a recordar-me onde estou, vendem camisolas estampadas, bonés, canecas e todo o tipo de objetos para, mais tarde, as pessoas não esquecerem de que estiveram aqui. E, no entanto, sinto que caminho nos limites da minha própria amnésia. Investigo tudo à procura de encontrar lembranças objetivas da vez em que cá estive. Parece que reconheço alguns detalhes, mas não consigo ter a certeza. Em determinados momentos, de tão perdido na memória, chego a duvidar de que consiga ter a certeza seja do que for.


À chegada à Plaza Mayor, abre-se um mundo enorme. As crianças correm em volta do coreto, os pombos rebentam quando essas crianças se aproximam, salpicam-se no céu. Ao fundo, a encabeçar a praça, está o Teatro Juan Bravo, leva o nome da estátua com que me cruzei há minutos, um dos nobres que liderou uma revolta contra a coroa no século XVI. Na outra ponta, está a catedral. Tenho a memória vaga de ter entrado na catedral. Antes de ser capaz de confiar nessa constatação, sento-me na esplanada do La Concepción, uma das mais clássicas de Segóvia. Essa tarimba nota-se e ajuda na conversa que mantenho com o empregado que espera o meu pedido. Confesso-lhe que estive cá no final dos anos 90 e só agora regressei. Diz-me que, nessa época, esta praça ainda era atravessada por carros. Imagino isso durante o tempo, sem pressa, em que tomo o meu café com leche.


Entro na catedral, bilhete de 3 euros. Na minha visita anterior, ainda aceitavam pesetas. Pela primeira vez, sinto que identifico algumas lembranças. Começa por tocar-me a solenidade, a mesma que preenchia muitas horas dos meus vinte e poucos anos. Logo a seguir, reconheço várias imagens, como é caso do retábulo, de algumas capelas ou da sumptuosa sala do capítulo. Transportava ainda um resto disto no meu interior, percebo agora. Ao desenterrar essas memórias, tenho nítido acesso a alguns vislumbres de quem fui. Também essa pessoa, com essa visão do mundo, estava num canto desse enorme armazém de luzes apagadas no meu interior.


Desço à sala de pinturas, debaixo do claustro, e comovo-me de um modo que, acredito, não diverge muito daquele que senti em 1997 ou 1998. O que são vinte anos para estes quadros com séculos de idade? Estas pinturas de pintores conhecidos e desconhecidos são, também elas, maneiras de fixar um tempo. Neste caso, o modo como se imaginava o divino, como se lidava com os seus mistérios.

De novo na rua, sob o grasnar das aves que cirandam a torre da catedral, sigo a direção do Palácio de Alcázar, das suas incríveis torres e vistas. Vou em busca dessa paisagem. O espaço e o tempo partilham quase todas as lógicas. Num e noutro, existe distância.




Texto e foto de José Luís Peixoto