• José Luís Peixoto

MINHO, PORTUGAL


O meu zimbório interior







Sem pressa, a viagem mais rápida é esta: fecho os olhos e estou diante do rio Minho. Não chego por estrada, chego pela lembrança. A primeira sensação é o toque do sol nas pálpebras estendidas, na pele das faces, acrescenta-me paz. Também é sol minhoto, vivacidade da primavera. Aqui, exatamente, parece-me ser o melhor sítio para começar. Estou do lado de cá, embora olhe para a outra margem e encontre o mesmo verde, a mesma neblina no topo dos montes. O rio pertence às duas margens.


Aprecio esta natureza sarapintada de casas, enfeitada pelo chilrear de pássaros, insetos que cruzam a manhã e, lá longe, motores de trabalhos agrícolas. Mas tenho de atravessar as muralhas, passar por um dos arcos, avançar pelas ruas empedradas de Valença até me sentar no bordo da fonte, no granito, diante do edifício da câmara. Aí, observo a circulação das gentes. E é como se atravessassem fronteiras em cada passo, não porque lhes pese o caminho mas, ao invés, porque têm um entendimento muito mais leve das fronteiras. Em fundo, as fachadas das casas são antigas e assistem a tudo isto, dão-lhe contexto.


Na Igreja da Colegiada de Santo Estevão, escuto os silêncios das pessoas que não querem fazer barulho, mas que existem, joelhos a estalarem como juntas de bancos de madeira que também estalam, solas a raspar no chão liso, séculos onde passaram muitos caminhos. Sei que esta igreja guarda o quadro da Virgem do Leite, não o recordo, mas sou capaz de imaginá-lo, já vi muitas mães a amamentarem os seus filhos, conheço esse milagre.


E estou em Vila Nova de Cerveira, foi rápida a viagem. De novo o rio e as serras, sempre o verde: um verde único, apesar dos múltiplos tons, tão escuro ali debaixo da sombra, tão claro acolá onde bate o sol, onde bate abril. Ainda de olhos fechados, distingo a Ilha dos Amores. Quase duvido dessa imagem: a vegetação viçosa, árvores que se levantam no meio do rio, que se dirigem ao céu, também uma cor plena, azul absoluto, e, em simultâneo, a mesma vegetação, as mesmas árvores a crescerem para baixo, árvores repetidas, levemente distorcidas pela correnteza, reflexo perfeito, como se quisessem regressar à nascente que lhes deu vida.


Quando me viro, deparo-me com solares, casas de altas e grossas paredes, onde famílias gravaram o seu nome, gerações de pedra. Estou ainda em Cerveira, mas estou também em muitos outros lugares deste Minho. Não reconheço os brasões, não sei dizer quem são os pais e avós, mas compreendo que entram pelo interior da história, quiseram deixar um rasto no tempo e tiveram meios para fazê-lo. Recordo personagens dos romances de Camilo Castelo Branco, talvez alguma delas tenha entrado nestes pátios e escutado o restolhar da hera que cobre estes muros.


E, de novo, talvez entre em algumas igrejas: o Santuário do Senhor do Bonfim, na serra, perto de Monção, tocado pela sombra verde de árvores, longos ramos, clorofila fresca; ou a Capela de São Sebastião, no monte do Crasto, Paredes de Coura, também lá no cimo, mas sobre pedra, rocha de encontro à rocha, cruz alta sobre a porta, vigia das freguesias lá em baixo; ou a Igreja da Nossa Senhora da Lapa, redonda, em Arcos de Valdevez, pessoas a subirem pelos seus degraus.


Assim chego a Arcos de Valdevez. Na Ponte do Senhor dos Milagres, ponte da vila, avalio as águas do rio Vez, é transparência verde. Ao longo do curso, o verde foi-se diluindo nesta serenidade. E, de repente, como uma ponte a dar continuidade a outra, este é o rio Lima, abeiro-me de uma borda de pedra e espreito lá para baixo, no fundo deste caminho de granito está Ponte de Lima, com as suas casas e o seu tempo. E, também de repente, estou em Ponte da Barca, o mesmo rio, mas outra perspectiva do mundo, principalmente aqui, a partir desta ponte medieval, calcetada, imagino carros de bois a atravessarem-na noutras eras.


E, sem explicação, chego a Viana do Castelo. É fim de tarde na minha lembrança. Subo ao zimbório, no topo do Santuário de Santa Luzia. Lá em baixo, a cidade, o oceano Atlântico e o rio Lima, ainda ele. Mas procuro dentro de mim e, no meu zimbório interior, parece-me que consigo alcançar todo o Minho. Não abro já os olhos. Sustenho o tempo por mais um instante e, na minha lembrança,, nesta hora de abril, aproveito para saborear um vinho verde imaginário, é primavera, fim de tarde, é um loureiro fresquinho, envolve-me a boca e, logo a seguir, o corpo inteiro.










Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Jesus David Gomez