• José Luís Peixoto

ÉVORA, PORTUGAL


A cidade da memória





No Alentejo, rodeada por campos solenes, ergue-se Évora, património branco, caiado, memória de séculos e de gerações encadeadas. Évora define-se por nomes que ressoam ao longo de séculos, monarcas que por aqui passaram, doutores que se destacaram nas cadeiras da segunda universidade mais antiga do país, mas Évora também se define pelas pequenas histórias, o povo anónimo, tantas vezes heróico.


No início da década de 60, o meu pai fez a recruta em Évora. Sou capaz de imaginá-lo, novo e fardado, a caminhar por estas ruas. Sou também capaz de recordar a sua voz a contar-me aventuras, a explicar-me como era a cidade nesse tempo. Repetia histórias quando o acompanhava nos seus trabalhos, ou quando vínhamos à Feira de São João.


Ainda hoje, em casa da minha mãe, está a caixa de joias que o meu pai lhe fez em madeira. Na tampa, como enfeite, talhou o templo romano, as suas colunas. Évora abrange toda a história, desde esse templo, passando pela Igreja de São Francisco, que terminou de construir-se no início do século XVI. Houve um fim de tarde em que estava sentado no Jardim Público com a minha avó, esperávamos o meu pai. E, como tínhamos tempo, fui eu que levei a minha avó a conhecer a Igreja de São Francisco e a Capela dos Ossos.


Évora abrange toda a história, a Biblioteca Pública, o Teatro Garcia de Resende, o Palácio de Dom Manuel, o meu pai na tropa, o meu pai a contar-me as suas aventuras, a minha avó e eu no jardim.


Acordar com a natureza, os pardais que atravessam a primavera, o rumor dos insetos na distância dos campos e, pouco depois, estar na Praça do Giraldo.



Como um encontro entre o futuro e um tempo sem tempo, o Ecork Hotel propõe a sofisticação e o conforto do design, a consciência da sustentabilidade e o Alentejo profundo, sobreiros, oliveiras, ovelhas a pastar. Ainda com a memória dessa paz, estacionamos diante do aqueduto e entramos nas ruas do centro histórico, Património Mundial da Humanidade reconhecido pela UNESCO.


Conto à Patrícia as histórias que o meu pai me contou, mostro-lhe a minha Évora. Das vezes que aqui estivemos juntos, faltou-nos esta disponibilidade, fundamental para apreciar tudo o que nos rodeia. Mas, com frequência, é a Patrícia que, depois de apontar a máquina e fotografar, me mostra algum detalhe em que eu nunca tinha reparado nesta cidade sem fim.


Um estalido dos joelhos é suficiente para ecoar por toda a basílica, pela Sé de Nossa Senhora da Assunção. Esta é a maior catedral medieval portuguesa. A luz entra por uma janela redonda, incandescente, atravessa a distância e acerta no altar, onde é refletida pelo dourado. Desde a sua construção, entre os séculos XII e XIII, quantas promessas e súplicas foram feitas neste corredor?


Passamos ao claustro e reencontramos o dia em toda a sua leveza. As camélias estão abertas, as laranjeiras estão cheias de fruta, são vivas as cores do pátio. Pequenos pardais descansam nesta trégua, o seu mundo é idílico.


Lá em cima, tocam os sinos como se nos chamassem. Subimos por uma escada de caracol que parece não terminar. O aperto dessa longa passagem é compensado pelo céu inteiro. No cimo da torre da catedral, absolutamente livres, temos diante de nós toda a cidade e, depois, lá ao fundo, todo o Alentejo.







Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto