• José Luís Peixoto

CARTAGENA E ILHAS DO ROSÁRIO, COLÔMBIA


Respirar nas Caraíbas





O mar das Caraíbas é um sonho, a cor das águas e do céu, dias de paz e de temperatura perfeita. No norte da Colômbia, nas cerca de 28 ilhas que compõem o arquipélago do Rosário, esse sonho é uma realidade.


A cerca de uma hora de barco da cidade de Cartagena das Índias, estas ilhas pertencem à reserva natural Corales del Rosario, que formam a mais ampla plataforma de corais da Colômbia e que permitem um extraordinário ecossistema submarino. Mas, também fora de água, a diversidade tropical dos bosques é privilegiada. Não é exagero falar de paraíso. Vale a pena atravessar o mundo para chegar lá.



O sol de Cartagena faz amadurecer a fruta e os sorrisos que enchem as ruas. Esse perfume mistura-se com os sons da salsa, que chegam de toda a parte, e com o mel do castelhano que aqui se fala, temperado pela generosidade deste clima feliz. À noite, as ruas do centro histórico, serão atravessadas por corpos a dirigirem-se para lugares onde hão de dançar e transpirar, mas isso será apenas depois. Durante o dia, esses caminhos estão ainda iluminados pelas cores vivas das paredes, as esplanadas estão cheias, tocam os sinos do Santuário de San Pedro Claver ou da Catedral Santa Catalina de Alejandria.


A arquitetura reflete a história. A traça colonial das casas deve-se aos dois séculos, XVI a XVIII, em que este foi um dos mais importantes portos comerciais da presença espanhola no continente americano. Carregamentos de metais preciosos eram expedidos de várias minas dos territórios que hoje pertencem à Colômbia e ao Perú e, a partir daqui, eram transportados em galeões para Espanha.


Gabriel Garcia Márquez viveu em Cartagena durante vários anos e escolheu ambientar neste cenário dois dos seus romances mais conhecidos: Ninguém escreve ao Coronel (1961) e Amor em Tempos de Cólera (1985). Quem conhece a literatura deste autor, ao chegar à cidade, estranha menos esta explosão de cor e de vida, reconhece-a dos livros que leu.


A Puerta del Reloj é a principal entrada para o centro histórico. Também conhecido como Ciudad Amurallada devido à fortaleza de 11 quilómetros que o circunda, e que é, no seu género, a fortificação mais importante e completa da América do Sul. Lá dentro, fervilha uma vida de ruas estreitas, de praças amplas, como a de Santo Domingo, onde repousa a Mujer Reclinada, famosa escultura de Fernando Botero.



Chegando à Marina de Santa Cruz, o horizonte é já muito maior. O barco vai ganhando velocidade ao afastar-se da cidade. Passamos pelo Forte de San Fernando de Bocachica, na Ilha Tierra Bomba e, a partir daí, avançamos pelo mar aberto, algumas ilhas a salpicarem a paisagem, a marcarem a distância, com o barco já na velocidade máxima.


Apesar do paraíso, é normal que algumas pessoas se indisponham nesta viagem. Esse desconforto depende dos ventos. Apesar de todos os avisos que recebemos, tivemos sorte, não sentimos na pele, ou na barriga, esse incómodo.


À medida que nos aproximávamos da ilha, chegávamos a uma existência própria. Passávamos por alguns ilhéus muito pequenos, com espaço apenas para uma casa, outros um pouco maiores, mas igualmente isolados e idílicos, uma realidade com outras cores, outras leis e, sobretudo, com outro tempo.


A lembrança que melhor descreve esses dias na ilha é estar deitado, olhos abertos ou fechados, a boiar: o corpo sem peso, suportado por uma matéria de temperatura e consistência ideais. Os sons da natureza são o mais próximo do silêncio que concebo. O toque das ondas na areia, as aves a planarem sem esforço, a existência da natureza. Ao boiar naquela água, também eu pertencia a essa imensidão. Se abria os olhos, via o céu, inteiro e imenso, como se boiasse nele também; se os fechava, acendiam-se os outros sentidos, gentis, flutuava neles.


Um homem, sem pressa, chegava a meio da manhã e a meio da tarde, e perguntava o que queríamos comer. Só assim, alguns dias com esta única preocupação. Faz sentido que, descrevendo paisagens como estas, se insista tanto na cor do mar. A pureza dessa e de outras cores naturais impacta, devolve-nos uma inocência que quase tínhamos esquecido.


Dentro ou fora de água, a boiar ou a sentir o ar limpo que me enchia os pulmões, que me circulava pelo corpo, assisti todos os dias ao pôr do sol. De novo, as cores, a sua pureza, mas agora a falarem de outra coisa. Eu sabia que, a seguir, chegaria a noite, com o seu imenso espetáculo de estrelas, o canto de milhões de insetos e animais, as ondas cíclicas sobre a areia. Mas isso seria apenas depois. Enquanto estava naquele momento só aquele momento importava.










Texto de José Luís Peixoto

Fotos de Patrícia Santos Pinto