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  • José Luís Peixoto

BERLIM, ALEMANHA

Pedalar na cidade



Os caminhos de Berlim pertencem às bicicletas. São as únicas que conseguem passar por toda a parte. Numa cidade, onde se espera o tempo que for preciso atrás de um semáforo vermelho numa rua deserta, as bicicletas permitem a si próprias uma liberdade diferente: tanto podem seguir na faixa que lhes é atribuída na estrada como, se houver espaço e for mais conveniente, podem avançar pelo passeio. Às vezes, em contramão.


Aluguei uma bicicleta para o dia inteiro, doze euros extraordinariamente bem gastos. Todos os lugares onde queria ir ficavam a uma distância acessível. Na cidade plana, pedalar dava uma velocidade adequada às coisas que passavam por mim. Por exemplo, pude abrandar ao longo de um resto do muro que separou as duas partes da cidade durante mais de quarenta anos, o oeste e o leste. A essa velocidade, nem depressa, nem devagar, pude sentir a emoção de estar ali, onde se viveu uma divisão marcante da história da Europa e do mundo.


Andar de bicicleta permite essa existência harmoniosa: a simplicidade do gesto de pedalar, os círculos que as pernas traçam no ar, a própria elegância estética desta máquina, composta por selim, guiador, quadro, rodas sustentadas pela delicadeza reta de raios. Por outro lado, a proporcionalidade entre esse gesto e o movimento de tudo, como uma certa impressão de controlo e de justiça.


Importa acrescentar, e não é um detalhe, que a primavera amenizava ainda mais tudo o que se via ou imaginava. A luz e a temperatura garantiam uma tranquilidade que, pareceu-me, não sentia daquela forma havia muito tempo. E, claro, a cidade de Berlim. Agora, na memória, tenho a impressão de que Berlim é uma mistura de edifícios gigantes e árvores: construções sólidas, compostas por grandes blocos de pedra, e enormes copas de árvores, repletas de folhas verdes, viçosas, ramos atravessados por raios de sol. Os edifícios, com a sua monumentalidade, fazem o ciclista sentir-se ínfimo, o que não é necessariamente negativo, assim recorda a humildade necessária, em risco perante a euforia que circular numa cidade como esta. As árvores, com a sua amável e profunda natureza, garantem oxigénio, simbólico e literal.


De bicicleta, passei pelas pontes que entram e saem da Ilha dos Museus, pessoas deitadas na relva dos parques junto ao rio Spree, a primavera; passei por casas ocupadas, paredes pintadas com palavras de ordem em alemão, pontos desafiantes de exclamação; passei pela sessão de fotografias de um casamento; passei por centros de refugiados, as crianças a brincarem cá fora, os adultos à janela. E cheguei a Kreuzberg, onde parei para beber um sumo de laranja espremido à minha frente e, depois de trancar a bicicleta a um poste, entrei em duas livrarias: uma dedicada exclusivamente a policiais, outra especializada em ficção científica.


E voltei à bicicleta. Nesse dia, cruzei-me com um carteiro numa grande bicicleta de carga, com pais em curiosas bicicletas que tinham à frente um espaço para os filhos, que seguiam muito direitos, a ver tudo, também com inúmeros distribuidores de comida, a carregarem enormes mochilas térmicas. Frequentemente, atravessei nuvens que cheiravam a kebabs do Médio Oriente ou a phos do Vietname.

Quando queria virar, estendia o braço desse lado e, de repente, sentia alguma timidez por me fazer notar, por estar a comunicar com estranhos. Ao mesmo tempo, sentia-me do meu tamanho exato, grande e pequeno, importante e pouco importante. E sempre, em todos os momentos, havia o respeito dos carros. Nunca nenhum se aproximou demasiado, como se me quisesse empurrar, como se eu fosse apenas um obstáculo que a sua urgência precisava de ultrapassar.


De certa forma, ainda estou neste momento a pedalar em Berlim. Fecho os olhos e sou capaz de sentir a paz dessa liberdade.



Texto e foto de José Luís Peixoto

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